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Capa:
O QUE HÁ DE
ERRADO
COM A
POLÍTICA?
Arnaldo Sisson Filho
Sociedade Humanitarista
no Brasil
Contra-capa:
O QUE HÁ DE ERRADO COM A
POLÍTICA?
Arnaldo Sisson Filho
Os acontecimentos na vida política brasileira dos últimos
anos deixam pouca dúvida de que existe algo de bastante
errado na forma da organização política deste país. O
gigantesco esquema de corrupção (que ficou conhecido como
“esquema PC”), o qual resultou no afastamento do presidente
Collor, o primeiro presidente eleito pelo voto direto da
população depois de um longo período de autoritarismo
militar, bem como os vários episódios de corrupção de
diferentes tipos que atingiram um grande número de políticos
do Congresso Nacional além, é claro, da persistência ou
mesmo do agravamento dos graves problemas econômicos e
sociais (inflação, desemprego, criminalidade, violência
etc.), compõem um quadro desalentador que requer uma
explicação mais profunda, do mesmo modo que o encaminhamento
de uma solução efetiva.
Esta obra procura demonstrar que os sistemas dominantes na
atualidade são estruturalmente incompetentes e que,
portanto, não é de causar qualquer surpresa que tantos
problemas aconteçam. Isto é, o texto procura demonstrar que
tanto os sistemas políticos chamados de democracias liberais
(como o que hoje está vigente no Brasil), quanto os sistemas
de inspiração marxista (que até pouco tempo predominavam na
ex-União Soviética e no leste europeu, e que ainda
predominam em países como a China ou Cuba), apresentam
falhas muito graves, as quais estão na base da conflituosa
situação mundial de nossos dias. Isto para falar apenas dos
sistemas dominantes na segunda metade do século XX, pois os
exemplos do Fascismo italiano e do Nacional Socialismo
(Nazismo) alemão, que foram importantes na primeira metade
deste século, são ainda piores devido, entre outras coisas,
ao exacerbamento do nacionalismo e do racismo.
Por esta razão, neste livro são apresentados e criticados as
premissas e os modelos políticos derivados do Liberalismo e
do Marxismo. Além disso, o livro sugere um modelo político
alternativo, isto é, uma nova proposta de democracia para o
futuro. A obra finaliza com um capítulo a respeito da
Sociedade Humanitarista, a qual encerra uma proposta de
transformação social baseada nos princípios e no modelo de
organização aqui defendidos.
Sociedade Humanitarista
no Brasil
Página inicial:
O QUE HÁ DE ERRADO COM A POLÍTICA?
Primeira Edição: Janeiro de 1994
Tiragem: 500 exemplares
Direitos:
SHB – SOCIEDADE HUMANITARISTA NO BRASIL
Página com citação, a título de portada:
“Em seguida, o velho filósofo (Herbert Marcuse) falou
algo que é bastante conhecido dos teóricos do Terceiro
Mundo. Não há um sábio, disse ele, mesmo um sábio burguês,
que seja capaz de negar a evidência de que é possível acabar
com a fome e a miséria através das forças atuais de
produção. Isto só não acontece por causa da desorganização
sócio-política do Planeta.” (Fernando Gabeira, Vida
Alternativa, p. 9)
Página com agradecimentos:
AGRADECIMENTOS
Um exame retrospectivo da realização desta obra revela uma
grande dívida para com algumas pessoas, de modo que ela se
parece mais com um trabalho grupal do que com um esforço
individual.
Desejo expressar meus sentimentos de profunda gratidão a
todas as pessoas que, de uma forma ou outra, citadas e não
citadas, colaboraram para que esta obra se torna-se
possível.
De forma particular, no entanto, destacarei apenas algumas
pessoas, às quais dedico especial reconhecimento:
–
a Philip E. Converse, cujas obras foram importantes
instrumentos teóricos e empíricos na realização desse
trabalho;
–
a João Batista, Luiz Antonio, Marly e Sara,
companheiros constantes destes primeiros tempos da Sociedade
Humanitarista no Brasil.
–
a Marina, minha esposa e companheira de ideal, pelo
enorme apoio em todos os sentidos.
Com todos reparto os eventuais méritos que esse trabalho
possa conter. As falhas e limitações, naturalmente, são
responsabilidade do autor.
Página com o índice:
ÍNDICE DOS CAPÍTULOS
1 – INTRODUÇÃO
2 – A UNIDADE SUBJACENTE À HUMANIDADE
3 – AS DIFERENÇAS DE CAPACIDADE ENTRE OS SERES HUMANOS
4 – O LIBERALISMO: PREMISSAS E SISTEMA POLÍTICO
5 – AS FALHAS DA DEMOCRACIA LIBERAL
6 – AS PREMISSAS E AS FALHAS DO MODELO MARXISTA
7 – OS PROBLEMAS MUNDIAIS E OS MODELOS POLÍTICOS DOMINANTES
8 – A DEMOCRACIA DO FUTURO
9 – A SOCIEDADE HUMANITARISTA E A IMPORTÂNCIA DA COOPERAÇÃ
Início do primeiro capítulo:
1 – INTRODUÇÃO
Os acontecimentos na vida política brasileira dos últimos
anos deixam pouca dúvida de que existe algo de bastante
errado na forma da organização política deste país. O
gigantesco esquema de corrupção (que ficou conhecido como
“esquema PC”), o qual resultou no afastamento do presidente
Collor, o primeiro presidente eleito pelo voto direto da
população depois de um longo período de autoritarismo
militar, bem como os vários episódios de corrupção de
diferentes tipos que atingiram um grande número de políticos
do Congresso Nacional além, é claro, da persistência ou
mesmo do agravamento dos graves problemas econômicos e
sociais (inflação, desemprego, criminalidade, violência
etc.), compõem um quadro desalentador que requer uma
explicação mais profunda, do mesmo modo que o encaminhamento
de uma solução efetiva.
Casos de corrupção envolvendo dirigentes políticos do mais
alto nível não são, de modo algum, típicos apenas de países
pobres. Eles têm ocorrido em grande número também nas nações
mais ricas a exemplo dos Estados Unidos, do Japão, da
Alemanha e da Itália. Este fato demonstra que também há algo
de muito errado na organização política destes países, que
costumam ser apontados como exemplos para os demais.
Mas o que torna mais dramática esta constatação no caso dos
países pobres é a situação de miséria em que se encontra
grande parte da população destes países, situação que por si
só exige para ser superada uma grande eficiência e probidade
na direção dos assuntos políticos. Assim sendo, estes
defeitos aparentemente comuns nos sistemas políticos, tanto
das nações ricas quanto das pobres, se tornam absolutamente
intoleráveis dentro da realidade das nações pobres.
Os Sistemas Políticos Dominantes
Ao longo deste texto procuraremos demonstrar que os sistemas
políticos dominantes na atualidade são estruturalmente
incompetentes e que, portanto, não é de causar qualquer
surpresa que tantos problemas aconteçam. Isto é,
procuraremos demonstrar que tanto os sistemas políticos
chamados de democracias liberais (como o que hoje está
vigente no Brasil), quanto os sistemas de inspiração
marxista (que até pouco tempo predominavam na ex-União
Soviética e no leste europeu, e que ainda predominam em
países como a China ou Cuba), apresentam ambos falhas muito
graves, as quais estão na base da conflituosa situação
mundial de nossos dias.
Isto para falar apenas dos sistemas dominantes na segunda
metade do século XX, pois os exemplos do Fascismo italiano e
do Nacional Socialismo (Nazismo) alemão, que foram
importantes na primeira metade deste século, são ainda
piores devido, entre outras coisas, ao exacerbamento do
nacionalismo e do racismo.
A Necessidade de um Novo Sistema Político
Francis Bacon, o grande sábio inglês do final do século XVI
e início do século XVII e que é tido como sendo talvez o
maior dentre os pioneiros do método científico, que se
tornou tão importante no desenvolvimento dos últimos
séculos, escreveu em sua obra Novum Organum (“Novo
Órgão”) de 1620 que:
“Seria algo insensato, em si mesmo contraditório, estimar
poder ser realizado o que até aqui não se conseguiu fazer,
salvo se se fizer uso de procedimentos ainda não tentados.”
Esta citação de Francis Bacon se aplica perfeitamente ao
argumento central deste texto, que diz respeito à
necessidade imperiosa de que se desenvolva um novo sistema
político. Isto porque este texto objetiva contribuir para a
realização de algo que até aqui não se conseguiu fazer, que
é a superação da situação atual de terrível miséria, tanto
econômica quanto política e moral, em que se encontra grande
parte da humanidade, especialmente aquela parte que habita
nos países pobres nos quais vivem 2/3 da população mundial.
Em resumo, este texto afirma centralmente que esta situação
dos países pobres não poder ser superada se não “se fizer
uso de procedimentos ainda não tentados”, especialmente
quanto ao desenvolvimento de um novo sistema político.
Neste sentido, precisamos perceber claramente o fato de que
os sistemas políticos atuais fundamentam-se em premissas
básicas a respeito dos seres humanos, e que não é possível
defender-se teses como as aqui apresentadas sem levar-se em
conta determinadas idéias filosóficas ou metafísicas (idéias
que dizem respeito a coisas que estão além da existência
meramente física, isto é, que dizem respeito a questões
ético-morais e psico-espirituais), especialmente em relação
às nossas concepções a respeito da natureza e das
capacidades dos seres humanos.
O professor C. B. Macpherson da Universidade de Toronto no
Canadá, em sua conhecida obra A Democracia Liberal:
Origens e Evolução, refere-se da seguinte maneira à
importância destes pressupostos a respeito dos seres humanos
ao considerarmos os sistemas políticos:
“Para mostrar que um modelo de sistema político ou de
sociedade, existente ou ainda não existente, mas desejado, é
praticável, isto é, para que se possa esperar que atue bem
por longo prazo, deve-se admitir alguns pressupostos sobre
os seres humanos, pelos quais e com os quais se há de
contar. De que tipo de conduta política são eles capazes?
Trata-se, evidentemente, de uma questão fundamental. Um
sistema político que exigisse, por exemplo, que os cidadãos
tenham mais racionalidade ou mais zelo político do que têm
ostensivamente agora, e mais do que se poderia esperar em
qualquer circunstância social a que se chegue, não mereceria
muita defesa.” (p. 12)
Por isto, ao criticarmos os sistemas políticos atuais como
sendo equivocados e incompetentes para gerar uma ordem
social justa e, portanto, como estando na base da situação
de miséria em que se encontra grande parte da população
mundial, bem como ao propormos novas regras para a
organização política das sociedades, muito especialmente
para aquelas do Terceiro Mundo, não poderemos deixar de
criticar os atuais pressupostos a respeito da natureza e das
capacidades dos seres humanos.
Há uma passagem de E. F. Schumacher, em sua obra O
Negócio É Ser Pequeno, que foi um grande best-seller
alguns anos atrás, na qual ele afirma esta conexão lógica
entre a adesão a idéias falsas e a miséria daí resultante.
Vejamos esta interessante passagem:
“Todas as matérias, não importa quão especializadas,
ligam-se a um centro; são como raios emanando de um sol. O
centro é constituído por nossas convicções mais básicas,
pelas idéias que realmente têm força para nos mover. Por
outras palavras, o centro consiste de Metafísica e Ética, de
idéias que – gostemos ou não disso – transcendem o mundo dos
fatos. Por transcenderem este mundo, não podem ser provadas
ou reprovadas pelo método científico comum. Isto não quer
dizer, contudo, que elas sejam puramente “subjetivas” ou
“relativas”, ou meras convenções arbitrárias. Têm de ser
fiéis à realidade, embora transcendam o mundo dos fatos
(...) Se não forem fiéis à realidade, a adesão a tal
conjunto de idéias tem de conduzir inevitavelmente a uma
catástrofe.” (p. 80)
O argumento central deste texto está relacionado exatamente
com isto: – que a miséria física a que está submetida grande
parte da população mundial está ligada aos equívocos dos
sistemas políticos dominantes, os quais, por sua vez, são
derivados de pressupostos metafísicos e éticos equivocados,
especialmente no que diz respeito à natureza essencial e às
capacidades dos seres humanos.
Há outra passagem, nesta mesma obra citada de E. F.
Schumacher, que ao nosso ver situa e sintetiza muito bem o
cerne dos equívocos metafísicos e éticos da época atual, dos
quais se derivam as atuais regras do jogo político:
“Apesar das idéias do século XIX negarem ou eliminarem a
hierarquia de níveis no universo, a noção de uma ordem
hierárquica é instrumento indispensável à compreensão. Sem o
reconhecimento de “Níveis de Ser” ou de “Graus de
Significação” não podemos tornar o mundo inteligível (...)
Talvez a tarefa do homem – ou simplesmente, se se preferir,
a felicidade do homem – seja alcançar um grau superior de
realização de suas potencialidades, um nível de ser ou “grau
de significação” mais elevado do que o que lhe advém
“naturalmente”: mas não podemos sequer estudar esta
possibilidade sem o reconhecimento prévio de uma estrutura
hierárquica. Na medida em que interpretarmos o mundo através
das grandes e centrais idéias do século XIX, permaneceremos
cegos a estas diferenças de nível, por termos sido cegados.”
(p. 82)
Ao longo do texto tentaremos evidenciar que esta
insuficiência na percepção das “diferenças de níveis”, de
fato, está na raiz dos principais equívocos das correntes de
pensamento sócio-político dominantes em nossa época, isto é,
o Liberalismo e o Marxismo. A luta entre estas duas
correntes e os sistemas políticos e econômicos delas
derivados marcaram centralmente a segunda metade deste
século XX, com todo o processo da chamada “Guerra Fria”,
muito embora neste momento, já próximo do final do século, a
democracia liberal tenha alcançado uma avassaladora
hegemonia. Especialmente após as mudanças ocorridas na
ex-União Soviética e em todo o leste europeu.
O Humanitarismo
Segundo a visão de mundo que orienta o desenvolvimento deste
texto – uma perspectiva ético-filosófica do ser humano que
denominamos de Humanitarismo – os erros fundamentais tanto
do Liberalismo quanto do Marxismo residem justamente na
falha de uma apropriada percepção dos aspectos da unidade e
da diversidade inerentes à espécie humana. Em vista disso,
parece oportuno colocar que toda a visão ético-filosófica do
Humanitarismo está centrada em apenas quatro grandes
princípios, que são os seguintes:
1– Todos os seres humanos constituem uma FRATERNIDADE;
2– Todos os seres humanos possuem uma mesma origem e uma
mesma natureza essencial e, portanto, IGUAL VALOR;
3– Não obstante a sua unidade e igualdade essenciais, os
seres humanos apresentam CAPACIDADES DIFERENCIADAS;
4– Em vista destes princípios, a norma que deve presidir a
justiça e a harmonia possíveis entre os seres humanos é a da
IGUALDADE DE OPORTUNIDADES para o desenvolvimento de suas
capacidades individuais diferenciadas.
O Plano Geral da Obra
Nos capítulos posteriores examinaremos, ainda que
sinteticamente, quais são os pressupostos gerais a respeito
dos seres humanos dentro do Liberalismo e do Marxismo.
Procuraremos, em síntese, mostrar de que modo estas duas
correntes, embora sob diferentes premissas, tendem a nivelar
os seres humanos dentro de um mesmo padrão uniforme. O
Liberalismo baseado na concepção do ser humano como um
agente essencialmente egoísta, e o Marxismo em uma concepção
materialista e historicista do ser humano.
A existência simultânea de uma unidade fundamental e de uma
grande diversidade de capacidades não tem sido percebida em
nossa época como sendo as características básicas da
humanidade. E esta falha marcante de nossa época está
relacionada ao grande predomínio do Liberalismo e do
Marxismo, com suas concepções fragmentadoras e niveladoras.
Em vista deste estado de coisas, é que se faz necessário
iniciarmos com uma apresentação a respeito destes dois
aspectos da unidade e da diversidade humanas, a fim de que
possamos ter um panorama mais claro da concepção de ser
humano que está sendo usada para criticar as premissas do
Liberalismo e do Marxismo.
Mais adiante, então, apresentaremos e criticaremos as
premissas e os modelos políticos derivados do Liberalismo e
do Marxismo. Depois ainda, procuraremos mostrar através de
uma rápida análise de alguns dos mais graves problemas do
Brasil, como estes problemas estão, de fato, relacionados
com as falhas do sistema político vigente. Acreditamos que,
por analogia, os principais elementos desta análise possam
ser aplicados a muitos outros países, especialmente àqueles
mais pobres ou do Terceiro Mundo.
Finalmente, sugeriremos um modelo político alternativo
derivado da visão de humanidade aqui apresentada. Como esta
visão está ligada ao Humanitarismo, concluiremos com um
capítulo a respeito do Humanitarismo e da Sociedade
Humanitarista, a qual encerra uma proposta prática e de
transformação social baseada nos princípios e no modelo de
organização aqui defendidos.
2 – A UNIDADE SUBJACENTE À HUMANIDADE
Unidade e Diversidade nas Tradições Religiosas
Uma visão a respeito da humanidade que contemple
simultaneamente uma unidade fundamental e uma grande
diversidade de capacidades não é absolutamente nova. Ela
está presente em praticamente todas as grandes tradições
religiosas da humanidade, embora mesmo dentro destas
tradições ela tenha sido corrompida de inúmeras maneiras, a
exemplo do sistema de castas atrelado ao Hinduísmo, ou da
ordem estratificada do feudalismo relacionada com o
Cristianismo, entre tantos outros exemplos.
Vejamos, no entanto, algumas citações extraídas dos textos
de várias tradições religiosas, com o propósito de
evidenciarmos, por meio do método comparativo, a existência
milenar deste conhecimento dos dois aspectos fundamentais
acima referidos. Pois, como está escrito num dos Vedas da
tradição hinduísta: “A verdade é uma só, mas os sábios falam
dela sob muitos nomes”.
Estas citações são meros exemplos, entre uma quantidade
muito grande de outras passagens que podem ser encontradas
nestas tradições religiosas. Elas foram agrupadas dentro dos
aspectos “Unidade” e “Diversidade” para facilitar a
visualização destes dois aspectos fundamentais. A seqüência
das religiões segue tão somente à ordem alfabética.
Budismo
Unidade:
“Na Essência (no Absoluto) não há olhos, nem ouvidos,
nem nariz, nem língua, nem audição, nem olfato, nem
gustação, nem tato, nem processo mental, nem objetos desse
processo mental, nem conhecimento, nem ignorância. Não há
destruição de objetos ou cessação de conhecimento, nem
cessação de ignorância.
“Na Essência (no Absoluto) não há as Quatro Nobres
Verdades: não há Dor, nem causa da Dor, nem cessação da Dor,
nem Nobre Caminho que leva à cessação da Dor. Não há
decadência ou morte, nem destruição da noção de decadência e
morte. Não há o conhecimento do Nirvana, não há obtenção do
Nirvana, nem não-obtenção do Nirvana.” (Maha-Prajna-Paramita)
Diversidade:
“Poucos são os homens que chegam à outra margem do rio; a
maioria deles se contenta em permanecer na mesma margem,
subindo-a e descendo-a.” (Dhammapada, 49a)
“O néscio pode associar-se a um sábio toda a
sua vida, mas percebe tão pouco da verdade como a colher do
gosto da sopa. O homem inteligente pode associar-se a um
sábio por um minuto, e perceber tanto da verdade quanto o
paladar do sabor da sopa.” (Dhammapada, 64-65)
“Contempla este mundo, adornado como uma
carruagem real! Os néscios estão encarapitados nele, mas os
sábios não estão presos a ele.” (Dhammapada, 171)
“Que grandes, pequenos e médios façam todos o
melhor ao seu alcance.” (Játacas, 121)
Confucionismo
Unidade:
“Deus produziu o que há de bom em nós.” (Analectos,
VII)
Diversidade:
“O homem superior pensa em seu caráter; o homem inferior
pensa em sua posição. O homem superior busca o que é
correto; o inferior, o que é lucrativo.” (Analectos,
IV)
“O bom e o mau governo dependem dos dirigentes.
Os cargos devem ser confiados, não aos favoritos do
príncipe, porém somente aos homens capazes. As funções devem
ser confiadas, não aos homens viciosos, porém aos homens
eminentes por suas virtudes e por seus talentos.”
(Chu-King, VIII, II, 5)
Cristianismo
Unidade:
“Deus é amor; aquele que permanece no amor permanece em
Deus, e nele permanece Deus.” (João, 4:16)
“Mente quem diz “amo a Deus”, mas odeia seu irmão.
Quem ama a Deus ama também a seu irmão”. (João,
4:20-21)
“De um só sangue Ele fez todas as gerações
humanas.” (Atos, 17:26)
“Em verdade vos digo que o quanto fizestes a um
destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mateus,
25:40)
Diversidade:
“Porque assim é (o Reino dos Céus) como um homem que, ao
ausentar-se para longe, chamou seus servos e lhes entregou
os seus bens. E deu a um cinco talentos, e a outro dois, e a
outro deu um, a cada um segundo a sua capacidade, e partiu
logo.” (Parábola dos Talentos, Mateus, 25:14-15)
“Eis que o semeador saiu a semear. Quando
semeava, uma parte das sementes caiu à beirada do caminho, e
vieram as aves e a comeram. Outra parte caiu nos lugares
pedregosos, onde não havia muita terra; logo nasceu, porque
a terra não era profunda, e tendo saído o sol, queimou-se; e
porque não tinha raízes, secou-se. Outra caiu entre os
espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram. Outra caiu
na terra boa e deu frutos, havendo grãos que rendiam cem por
um, outros sessenta, outros trinta por um. O que tem ouvidos
para ouvir, ouça.” (Parábola do Semeador, Mateus,
13:3-8)
Hinduísmo
Unidade:
“O verdadeiro conhecimento é ver uma vida imutável em todos
os seres, e ver nos seres separados o Uno Inseparável.”
(Bhagavad-Gita, XVIII)
“Amar todas as coisas, grandes ou pequenas, tal
como Deus as ama, eis a verdadeira religião.” (Hitopadexa
Upanishade)
Diversidade:
“O mundo dos homens, achando-se sob o domínio da ilusão
dessas três qualidades da natureza (“gunas”), não compreende
que Eu sou superior a elas, e conservo-Me intacto e imutável
no meio dos inúmeros acontecimentos e mudanças.
“Esta ilusão é muito forte, e tão denso é o seu
véu que é difícil aos olhos humanos penetrá-lo. Somente
aqueles que a Mim se dirigem e se deixam iluminar pela chama
que está detrás da fumaça, vencem a ilusão e chegam até
Mim”.
“Malfeitores e tolos não me procuram, nem
aqueles que nutrem pensamentos baixos, nem aqueles que vêem,
no vasto espetáculo da natureza, somente o jogo das forças,
sem diretor; nem aqueles que extinguiram em si a centelha da
vida espiritual e se tornaram plenamente materialistas”.
“Há quatro classes de gente que a Mim se
dirigem: – os infelizes, os que investigam a verdade, os
bondosos e os sábios.”
(Bhagavad-Gita, VII)
Islamismo
Unidade:
“Ó Povo! Servi Alá, que vos criou, a vós e aos que vos
precederam. Ele fez a terra para vosso assento e o céu para
vosso dossel. E ele faz cair chuva do céu para produzir os
frutos com que vos sustentais.” (Corão, 2:20)
Diversidade:
“Fala aos homens segundo suas capacidades mentais; se lhes
falares de coisas que não podem compreender, poderão incidir
em erro.” (Hadith ou Máximas de Maomé, 143)
Judaísmo
Unidade:
“Não temos todos nós um mesmo Pai? Não nos criou um mesmo
Deus?” (Malaquias, 2:10)
“Toda sabedoria vem de Deus, e com Ele está e
esteve sempre, antes de todos os séculos.” (Eclesiástico,
1:1)
Diversidade:
“Quando os justos governam, o povo se regozija; mas quando
no poder estão os perversos, o povo geme.” (Provérbios,
29:2)
“Entre os homens se distinguem quatro tipos de
caráter. O neutro, que é daquele que diz: – ‘o que é meu é
meu, e o que é teu é teu’. O rústico, que é daquele que diz:
– ‘o que é meu é teu, e o que é teu é meu’. O santo, que é
daquele que diz: – ‘o que é meu é teu, e o que é teu é teu’.
E o perverso, que é daquele que diz: – ‘o que é meu é meu, e
o que é teu é meu’.” (Máximas dos Pais, 5:13)
Taoísmo
Unidade:
“Há uma coisa que existia antes do começo da terra e do céu,
e o seu nome é o Tao [o grande princípio de ordem universal,
sintetizador e harmonizador do “Yin” e do “Yang”]. O homem
adapta-se à terra; a terra adapta-se ao firmamento; o
firmamento adapta-se ao Tao; o Tao adapta-se à sua própria
natureza.” (Tao-Te-King, 25)
“O Tao é inominável e oculto, e contudo todas as
coisas se realizam nele.” (idem, 41)
Diversidade:
“É fácil seguir o grande Tao, mas o povo vagueia pelas
veredas.” (Tao-Te-King, 53)
Xintoísmo
Unidade:
“Todos os homens são irmãos; todos recebem as bênçãos do
mesmo céu.” (Provérbio do Kurozomi Kyo)
Diversidade:
“Para todas as coisas, grandes ou pequenas, cumpre descobrir
o homem certo, e elas serão bem administradas.” (Nihongi
ou Crônicas do Japão, cap. 22)
Como vemos, podemos encontrar nas várias tradições
religiosas ensinamentos que corroboram a perspectiva contida
nos princípios do Humanitarismo a respeito da existência de
uma unidade essencial e de uma grande diversidade de
capacidades manifestadas.
A seguir examinaremos estas duas características básicas da
humanidade à luz de informações oriundas das ciências
contemporâneas. No restante deste capítulo reuniremos alguns
conhecimentos científicos que esclarecem e corroboram o
aspecto da “unidade”. No seguinte capítulo faremos o mesmo
em relação ao aspecto da “diversidade”.
A Unidade nas Ciências Contemporâneas
Fritjof Capra, físico de renome internacional e autor do
best-seller O Tao da Física, situa muito bem nesta
sua obra a questão da unidade sob o ponto de vista da física
contemporânea, inclusive em comparação à visão religiosa ou
mística. No capítulo “A Unidade de Todas as Coisas” ele
examina como a teoria quântica, e recentes experimentos no
campo da física das partículas subatômicas tendem a
corroborar e se aproximam muito da visão de mundo dos
místicos. Não é necessário repetirmos aqui tais
desenvolvimentos científicos, os quais já são bem conhecidos
pelas pessoas desta área e podem ser complicados para os
leigos no assunto. Citaremos apenas um parágrafo em que
Fritjof Capra resume sua posição a respeito deste assunto:
“A física moderna, é claro, trabalha numa perspectiva muito
diferente e não pode ir tão longe (quanto a visão do
místico) na experiência da unidade de todas as coisas. Mas
na teoria atômica ela deu um grande passo na direção da
visão de mundo dos místicos. A teoria quântica aboliu a
noção de objetos fundamentalmente separados, introduziu o
conceito do participante para substituir aquele do
observador, e pode até mesmo achar necessário incluir a
consciência humana em sua descrição do mundo. Ela passou a
ver o universo como uma rede interconectada de relações
físicas e mentais, cujas partes são definidas somente
através de suas conexões com o todo.”
(The Tao of Physics, p. 129)
Esta básica e estreita interconexão de todas as coisas na
natureza parece ser o limite a que podemos chegar com o
auxílio da ciência, no que diz respeito ao reconhecimento de
uma unidade subjacente à humanidade. Como podemos ler na
obra de Capra, ela se deriva muito naturalmente da teoria
quântica. Contudo, esta estreita interconexão pode ser
observada sob uma perspectiva científica em muitas outras
áreas. Um outro exemplo muito iluminador está no campo da
astrofísica, ao observarmos a nossa completa dependência do
Sol na manutenção de toda a vida que hoje conhecemos, e de
onde também podemos depreender muito da unidade subjacente a
toda a natureza. Vejamos, a este respeito, uma passagem do
Dr. I. K. Taimni, PhD. em Química, pela Universidade de
Londres, retirada de sua obra Gayatri, na qual lemos:
“O Sol é o centro do sistema solar, em torno do qual todos
os planetas estão girando. A ciência demonstrou que o Sol é
a fonte de todos os tipos de energia que são necessários
para a vida no sistema solar. Mas a ciência considera o Sol
apenas como uma enorme bola de fogo cuja energia está sendo
mantida pela conversão de Hidrogênio em Hélio, a reação
termonuclear subjacente à produção da bomba de Hidrogênio.
Este potente centro de energia física está continuamente
liberando todos os tipos de energia e vibrações no sistema
solar, como o calor, a luz e os outros tipos de energia que
são utilizados na manutenção da vida em nosso planeta, em
todas as suas formas. A forma maravilhosa como estão bem
ajustadas e reguladas estas várias forças operando no
sistema solar pode ser percebida pelo fato de que se a
temperatura do Sol se elevasse apenas um por cento, todos
nós seríamos reduzidos a cinzas instantaneamente, e se ela
caísse um por cento, seríamos congelados na mesma hora.”
(p. 80)
Ao menos no que diz respeito ao sistema solar, a citação
acima nos mostra claramente como, mesmo no plano material
que conhecemos cientificamente, todas as formas de vida
possuem um centro único do qual elas dependem completamente,
fazendo-nos lembrar da famosa afirmação da tradição de
Hermes Trimegistro de que: – “Assim como o grande é o
pequeno, tal como o que está no alto é o que está embaixo, e
tal como o que está dentro é o que está fora”. Esta citação
do Dr. Taimni também evidencia a estreita interdependência
existente na natureza, bem como sugere belamente que toda a
corrente da vida possui uma única fonte.
Os conhecimentos oriundos de outras áreas da ciência também
corroboram esta estreita interdependência das formas de vida
no nosso planeta. A Biologia, e dentro dela especialmente a
Ecologia, conhece cada vez mais precisamente que a poluição
e a destruição do ambiente natural de uma parte do planeta
pode ocasionar desequilíbrios catastróficos não apenas
naquele lugar, mas também em outras áreas muito distantes.
É quase desnecessário mencionar exemplos a este respeito,
uma vez que alguns deles são conhecidos por quase todas as
pessoas medianamente informadas em nossos dias, tais como os
desequilíbrios climáticos provocados pela destruição das
florestas, a extensão transcontinental dos efeitos de
desastres atômicos como o de Chernobyl, as chuvas ácidas
provocadas pela poluição industrial, o efeito estufa que
produz um aumento da temperatura do planeta – com resultados
potencialmente catastróficos – e que é devido à poluição
oriunda, sobretudo, das várias formas de combustão, ou ainda
do buraco na camada de ozônio da atmosfera terrestre, ao que
tudo indica em franco crescimento, e também de gravíssimas
conseqüências, entre outras tantas formas de poluição e
devastação do ambiente natural.
Mesmo no campo das ciências sociais, políticas e econômicas
esta interdependência torna-se cada vez mais aparente.
Apenas para darmos um exemplo, os efeitos da desorganização
político-econômica que resultam na miséria de muitos, dentro
ou fora de um mesmo país, não se restringem somente àqueles
que são diretamente afetados pela miséria, mas repercutem
inexoravelmente sobre a qualidade de vida mesmo dos mais
abastados, sob a forma de aumentos assustadores na
criminalidade: nos roubos, assaltos, seqüestros,
latrocínios, terrorismo, na proliferação das drogas e de
outras tantas formas de violência social. Tudo isto
significando uma enorme perda na qualidade de vida mesmo
daquelas pessoas aparentemente não atingidas pela miséria,
ou mesmo das mais ricas. Este simples exemplo da
interconexão na área social já é suficiente para mostrar a
total impossibilidade de considerarmos que os destinos de
alguns seres humanos podem estar dissociados dos destinos
dos demais seres humanos.
Como dissemos, a comprovação da existência desta estreita
interconexão entre todas as coisas na natureza, humanas ou
não humanas, talvez seja o limite até onde a ciência possa
nos auxiliar, no sentido de corroborar o aspecto da
existência de uma unidade subjacente a todos os seres
humanos. Mas o fato é que já se trata de algo muito
significativo. E, sob todos os ângulos que se possa
analisar, os avanços dos conhecimentos científicos somente
têm reforçado e apontado na direção de uma unicidade cada
vez mais aparente entre todas as coisas e fenômenos da
natureza. E a espécie humana, como vimos, certamente não se
constitui em nenhuma exceção a esta regra. O pólo da unidade
subjacente à família humana pode encontrar, portanto, dentro
dos conhecimentos científicos hoje ao nosso dispor, muitos
argumentos e inferências em seu favor.
3 – AS
DIFERENÇAS DE CAPACIDADE ENTRE OS SERES HUMANOS
Passemos, agora, a um exame científico deste segundo aspecto
fundamental da humanidade, que é o da grande diversidade de
capacidades entre os indivíduos. Trataremos desta questão
com o auxílio de informações oriundas, sobretudo, da ciência
política, as quais nos revelam o perfil da abrangência da
consciência social da população.
Os grandes avanços na área dos computadores, a partir da
metade do século XX, permitiram uma facilidade muito maior
na realização de pesquisas amostrais abrangendo grandes
populações, ou até mesmo nações inteiras com muitos milhões
de habitantes, a exemplo dos EUA. Deste modo, pesquisas
visando obter um panorama preciso e com base empírica (isto
é, com base em informações obtidas através de pesquisas de
campo) a respeito da realidade ideacional e da consciência
social da população começaram a ser realizadas regularmente
em vários lugares, sobretudo em centros ligados às grandes
universidades. Um dos centros deste tipo, talvez o que
acumule maior experiência e goze de maior prestígio
internacional, é o “Survey Research Center” (Centro de
Pesquisas Amostrais) ligado ao Instituto de Pesquisas
Sociais da Universidade de Michigan, nos EUA.
Os Estudos de Philip E.
Converse
Um pesquisador bastante conhecido, que durante vários anos
trabalhou neste Centro, é Philip E. Converse, o qual
juntamente com mais três colegas publicou em 1960 uma obra
que se tornou um clássico na área chamada The American
Voter (“O Eleitor Americano”). Converse e seus colegas
possuem vários trabalhos neste campo de investigação. Dois
dos textos bastante conhecidos de Converse são The Nature
of Belief Systems in Mass Publics (“A Natureza dos
Sistemas de Crença na Massa”), 1964, e Public Opinion and
Voting Behavior (“Opinião Pública e Comportamento
Eleitoral”), 1975, o primeiro deles também tendo se
transformado em um clássico na área.
Nestes trabalhos Converse e seus colegas nos apresentam um
perfil bastante preciso de algumas das principais
características da consciência social da população americana
como um todo. Estes trabalhos estimularam pesquisas análogas
em outros países, a exemplo de Political Experience and
Electoral Politics in Brazil (“Experiência Política e
Política Eleitoral no Brasil”), 1977, diss. de doutorado
(Connecticut), de Judson M. De Cew Jr., da minha própria
dissertação de mestrado (UFRGS), A Consciência Política
na Massa, 1984, e Political Representation in France
(“Representação Política na França”), 1986, do próprio
Converse em parceria com Roy Pierce.
Neste texto nos valeremos de alguns aspectos teóricos destes
trabalhos, a exemplo da conhecida tipologia (categorias de
classificação) a respeito dos níveis de abrangência
conceitual na população, empregada por Philip Converse e
seus colegas de Michigan, bem como de dados empíricos
extraídos em sua maioria também destes trabalhos, sobretudo
da minha dissertação de mestrado, na qual me preocupei
especialmente em precisar e detalhar as diferenças entre os
níveis de abrangência da tipologia de Michigan, aplicando-a
à realidade brasileira e comparando-a com os dados dos EUA.
O exame comparativo de dados relativos a um país rico, ou
desenvolvido, como os EUA, e de dados de um país pobre como
o Brasil contribuirá para nos oferecer uma visão mais
completa da humanidade como um todo, especialmente em vista
do fato que, como dissemos, duas terças partes da população
mundial encontram-se nos países pobres, ditos
subdesenvolvidos.
As Diferenças de Alcance na
Consciência Social da População
Através do exame desses dados empíricos procuraremos, por um
lado corroborar e, por outro, dar maior precisão
quantitativa ao aspecto da diversidade inerente à concepção
de humanidade que procuramos apresentar.
Nos interessam, muito especialmente, as diferenças
existentes entre os níveis de abrangência constatados, de um
lado, naquela parcela da população que podemos denominar de
“elite”, isto é, a porção mais intelectualizada da
população, e de outro lado, no grosso da população, que
podemos denominar de “massa”, a qual está enquadrada na
esfera de influência da elite, conforme será evidenciado à
luz dos dados que examinaremos a seguir.
É um fato bem conhecido pelos institutos de pesquisa de
opinião pública, ou pelas agências de publicidade que
trabalham com e sobre a opinião pública, e que foi muito bem
apanhado nos trabalhos pioneiros de Converse e seus colegas,
que os diferenciais existentes entre as quantidades de
informação abarcadas pelos indivíduos da elite e pela massa
em geral são simplesmente impressionantes. Dentro de uma
amostra global da população, estas quantidades variam desde
um número muito grande de informações bem organizadas ao
nível da elite, até ínfimas porções entre os indivíduos de
menor abrangência ou entendimento dos fatos sociais.
Com base nos dados oriundos dos “surveys” (pesquisas
amostrais) aplicados à população norte-americana como um
todo, Converse revela em seus textos que muitas coisas
importantes ocorrem à medida que se desce nesta escala de
quantidades de informação abarcadas pelos indivíduos.
As Diferenças: a
Inter-Relação nos Sistemas de Crença
Em primeiro lugar, ele mostra que rapidamente desaparece a
compreensão, ainda que genérica, a respeito das principais e
mais comuns correntes político-ideológicas. Para se ter uma
idéia inicial, esta compreensão se desvanece mesmo antes de
se atingir 10 % da população norte-americana, ou seja, o
percentual dos que no início dos anos 60 possuíam grau
universitário. E que, a partir daí, um número cada vez maior
de informações importantes estão ausentes, resultando em um
declínio crescente daquilo que Converse chamou de “inter-relação”
entre os diferentes elementos, informações ou idéias que
compõem os sistemas de crença dos indivíduos.
Além disso, que a amplitude destes sistemas de crença vai se
tornando cada vez mais estreita e que, ao invés de grandes
quantidades de informações bem organizadas ao nível da
elite, logo passamos a “encontrar uma proliferação de
aglomerados de idéias entre os quais pouca inter-relação é
sentida, mesmo, freqüentemente, em casos de inter-relação
puramente lógica.” (Converse, 1964, p. 213)
A respeito desse conceito de inter-relação Converse
esclarece que:
“No caso estático, a “inter-relação” pode ser tomada como
significando o sucesso que teríamos ao predizer, dado o
prévio conhecimento de que um indivíduo sustenta uma
determinada atitude, que ele sustentará certas outras idéias
e atitudes. Dependemos implicitamente de tal noção de
inter-relação ao julgar, por exemplo, que se uma pessoa se
opõe à expansão dos benefícios sociais, que ela
provavelmente é conservadora e que também se opõe a qualquer
nacionalização de indústrias privadas, auxílios federais à
educação, imposto de renda fortemente progressivo, e assim
por diante. A maioria das discussões sobre ideologias se
valem de suposições relativamente elaboradas sobre tais
inter-relações. A inter-relação deve ser tratada, é claro,
como uma questão de grau, e este pode ser facilmente medido,
pelo menos como uma média entre indivíduos.
“No caso dinâmico, a “inter-relação” ou “interdependência”
se refere à probabilidade que uma mudança no status
percebido (verdade, desejabilidade etc.) de um elemento ou
idéia iria requerer psicologicamente, do ponto de vista do
indivíduo, alguma(s) mudança(s) compensatória(s) no status
de outros elementos ou idéias em outras partes da
configuração do sistema de crença deste indivíduo.” (idem,
p. 207)
As Diferenças: os Elementos
de Maior Centralidade
Por outro lado, o caráter dos objetos de maior centralidade
nos sistemas de crença dos indivíduos também sofre notáveis
e sistemáticas mudanças ao descermos na referida escala de
quantidade de informações. Estes objetos mais centrais
mudam, segundo Converse, desde o “remoto, genérico e
abstrato para o crescentemente simples, concreto, ou “perto
de casa”.” (idem, p. 213) Esta mudança, em termos de
conteúdos de maior centralidade, tende a se dar, por
exemplo, dos princípios ideológicos abstratos para os grupos
ou categorias sociais mais conhecidos (classe social,
categoria econômica, religião etc.). E destes grupos para os
líderes carismáticos e, finalmente, para temas da vivência
imediata dos indivíduos, tais como a família, o trabalho e
as amizades.
Como dissemos, a maior parte destas mudanças são de um modo
geral bem conhecidas, a exemplo de certas características do
mundo ideacional dos indivíduos de mais baixa renda e/ou
escolaridade, tais como a predominância do pensamento
concreto e de perspectivas temporais de curto prazo.
Contudo, Converse vai além desse conhecimento genérico ao
ressaltar que:
“(...) a maioria das coisas em política – particularmente aquelas
que se desenrolam nos palcos nacionais e internacionais –
são, por sua própria natureza, remotas e abstratas. No que
tange à política, portanto, tais mudanças ideacionais
começam a ocorrer logo abaixo do estrato extremamente fino
da população dos que já tiveram oportunidade de fazer
pronunciamentos públicos sobre assuntos políticos. Em outras
palavras, as mudanças nos sistemas de crença que falamos não
são uma patologia limitada a uma fina e desorientada camada
de miseráveis e marginais; elas são imediatamente relevantes
para a compreensão do grosso do comportamento político da
massa.
“É este último fato que parece ser repetidamente mal
compreendido pelos analistas sofisticados que comentam, de
uma forma ou outra, sobre o significado da política de
massa.” (idem, p. 213)
O Papel Organizativo dos
Conceitos Abstratos
A partir de observações fundamentais como esta, Converse
tratou de examinar mais detalhadamente a realidade e o
perfil destas mudanças de alcance na consciência
sócio-política da população em geral.
O estudo cuidadoso das entrevistas trazidas pelos surveys,
os quais incluíam tanto questões fechadas, isto é, com
respostas previamente estruturadas, quanto farta quantidade
de questões abertas, isto é, com possibilidade de respostas
totalmente livres por parte dos entrevistados, revelou a
estes pesquisadores que a quantidade e a organização das
informações abarcadas pelos diferentes indivíduos em seus
sistemas de crenças estão intimamente relacionadas com o que
eles chamaram de “dimensões ideológicas de avaliação”.
Isto é, que certas idéias abstratas funcionam como conceitos
organizadores que permitem a inter-relação entre os
elementos e conjuntos de informações em um sistema de
crenças, e permitem que o indivíduo, nas palavras de
Converse, “localize e dê sentido a uma mais ampla gama de
informações sobre um domínio particular do que lhe seria
possível sem tal organização.” (idem, p. 214)
Um exemplo deste tipo de dimensões ideológicas de avaliação,
o qual é muito usado nos EUA, e que é muito útil para
sintetizar e organizar eventos e informações não apenas nos
EUA, mas em muitos países, nos é dado pelos conceitos de
“liberal” e de “conservador”. No Brasil, bem como em muitos
outros países, esta classificação de “liberal-conservador” é
freqüentemente substituída pela de
“progressista-conservador” ou ainda pela classificação
“esquerda-direita”, a qual abordaremos mais adiante quando
examinarmos os dados empíricos.
Converse observa que estas dimensões ideológicas de
avaliação não são usadas apenas pelos indivíduos para
economia interna de seus sistemas de crença, mas que elas
também são freqüentemente utilizadas pelos analistas que as
empregam na caracterização de eventos e, inclusive, na
classificação das atitudes da população como um todo. Em
vista disso, Converse chama a atenção para o fato de que
dimensões de avaliação dessa natureza se constituem em
abstrações de alta ordem se considerarmos a população como
um todo e que “tais abstrações não são ferramentas
conceituais típicas do “homem da rua”.” (idem. p. 215)
Mais do que isso, que a parcela da população que domina e
utiliza tais dimensões ideológicas de avaliação se constitui
em uma pequena minoria, conforme logo constataremos ao
examinarmos os dados empíricos.
Os Níveis de Abrangência da
Classificação de Philip Converse
A partir destas constatações, Converse e seus colegas se
preocuparam em definir algumas categorias que pudessem
revelar com certa precisão o perfil destas mudanças
ideacionais na população. A este respeito Converse relata
que:
“O exame das próprias entrevistas sugeriu vários estratos de
classificação, os quais foram hierarquicamente ordenados
como “níveis de conceitualização” com base em avaliações
prévias acerca da abrangência da apreensão contextual do
sistema político que cada estrato parecia representar.”
(idem, p. 215)
Estes estratos, então, se constituíram na tipologia de
an lise que ser descrita a seguir, a qual foi amplamente
utilizada nas obras mencionadas acima, e que ser o nosso
principal instrumento para a constatação empírica do aspecto
das diferenças dentro da humanidade, bem como para dar-lhe
maior precisão e detalhamento.
Os Ideólogos
Em primeiro lugar, constituindo o nível mais elevado de
abrangência conceitual, foram selecionados os entrevistados
que, nas palavras de Philip Converse:
“de
fato confiaram de alguma forma ativa em dimensões
conceituais relativamente abstratas e de amplo alcance como
uma medida pela qual os objetos político-sociais e seus
significados variáveis ao longo do tempo foram avaliados.
Este primeiro estrato foi com certa liberdade denominado de
“ideólogo”.” (idem, p. 216)
Os Quase-Ideólogos
No segundo estrato desta classificação foram selecionados:
“aqueles entrevistados que mencionaram tais dimensões de
avaliação de uma maneira periférica, mas que pareciam não
depender muito das mesmas em termos avaliativos, ou que
usaram tais conceitos de uma forma que deixou dúvidas acerca
da amplitude de sua compreensão quanto ao significado do
termo. Este segundo estrato foi denominado
“quase-ideólogo”.” (idem, p. 216)
O Nível “Interesse de
Grupo”
Foram classificados no terceiro estrato aqueles
entrevistados que não se valeram de quaisquer de tais
dimensões abrangentes, ainda que avaliassem ações sociais,
políticas ou econômicas, bem como partidos e candidatos em
termos de suas repercussões e relações com os grupamentos
sociais com os quais se identificam, tais como categorias
econômicas, religiosas, raciais e assim por diante. Em vista
disso, este nível foi denominado de “interesse de grupo”,
sendo que os indivíduos mais sofisticados nesse estrato “demonstraram
um apercebimento da existência de um conflito entre “grandes
empresas” ou “ricos”, de um lado, e “trabalho” ou
“trabalhadores” de outro, sendo os partidos e os candidatos
situados nessa perspectiva.” (idem, p. 216)
As características deste terceiro estrato podem gerar, à
primeira vista, certa confusão em relação às diferenças
existentes entre este nível de conceitualização e os
primeiros mais ideológicos, em vista da argumentação de que
este conflito entre grandes grupamentos sociais, sobretudo
entre “grande capital” e “trabalhadores”, se constitui
segundo certas perspectivas teóricas no cerne da questão
ideológica. Entretanto, independente do mérito teórico
destas perspectivas ideológicas, as diferenças entre estes
estratos são bem marcantes. Um exemplo dessas diferenças
marcantes diz respeito ao fato de que a menos que uma
questão se relacione de uma forma quase obviamente punitiva
ou recompensadora com os interesses dos grupamentos com os
quais os indivíduos desse estrato se identificam “lhes
falta a apreensão contextual do sistema sócio-político para
perceber como deveriam responder a estas questões sem que
lhes seja informado pelas elites que gozam de sua confiança.”
(Converse, idem, p. 216)
Mais ainda, o seu interesse por questões relativamente
abrangentes não é suficientemente forte para prestarem muita
atenção nas informações relativas a estas questões, e se
acontecer de não receberem tais comunicações “o
conhecimento de suas afiliações grupais pode ser de pouca
valia para predizer suas respostas.” (idem, p. 216)
Converse esclarece, entretanto, que esta falta de
comunicações quanto a estas informações não é muito comum.
Converse denominou esse comportamento típico dos indivíduos
deste estrato de “ideologia por procuração”.
O Nível “Natureza dos
Tempos”
O quarto estrato de classificação foi definido, em boa
medida, de uma forma residual. Nele foram selecionados os
entrevistados que fizeram em suas avaliações considerações
sócio-políticas de algum tipo ou de outro, mas que não se
valeram de argumentos ou atitudes que pudessem ser
classificadas em qualquer dos estratos anteriores. Este
estrato foi denominado de “natureza dos tempos” porque os
principais modos de avaliação desta categoria dizem respeito
a um relacionamento entre eventos sociais, políticos ou
econômicos, bem como partidos e candidatos com momentos ou
estados sócio-econômicos gerais de depressão ou de
prosperidade.
Um outro modo principal de avaliação também característico
dos indivíduos selecionados neste grupo é o relacionamento
de eventos, partidos etc., com questões particulares pelas
quais sintam gratidão ou indignação pessoal, sem indicação
alguma de que as vejam como representativas de posturas
ideológicas, ou mesmo como estando relacionadas aos
grupamentos sociais mais amplos.
O Nível “Sem Conteúdo
Político”
Finalmente, o quinto estrato enquadrou aqueles indivíduos
cujas avaliações do cenário sócio-político não apresentaram
qualquer relação com questões tipicamente políticas, sendo
por essa razão denominados de “sem conteúdo tipicamente
político” ou, para simplificar, “sem conteúdo político”.
Entre os indivíduos selecionados nesse estrato alguns até
mesmo declararam simpatia por algum partido, mas sem
conhecer qualquer coisa de suas posições ideológicas, ou
mesmo questões mais concretas que pudessem caracterizar o
seu programa ou plataforma.
Exemplos típicos desse estrato são os indivíduos que nos
processos eleitorais se guiam meramente pelas qualidades
pessoais dos candidatos, não raro por qualidades bastantes
singulares tais como a beleza física, a voz, a simpatia, a
popularidade ou mesmo o clube esportivo com qual o candidato
esteja relacionado. Ainda foram selecionados nesse estrato,
é claro, todos os entrevistados que declararam prestar tão
pouca atenção às questões políticas que não se sentiam
capazes de dizer qualquer coisa sobre plataformas políticas,
ou mesmo sobre partidos e candidatos.
A Pesquisa Utilizada
Antes de entrarmos no exame dos dados empíricos, parece
oportuno tecer alguns comentários quanto ao rigor
estatístico das obras citadas, das quais obtivemos a maioria
dos dados que a seguir serão examinados. Em primeiro lugar,
cabe ressaltar que as técnicas amostrais empregadas nestes
estudos são extraordinariamente confiáveis, seguramente
exemplos do que há de melhor em amostragem estatística, e
que os resultados obtidos para muitas variáveis que também
são acompanhadas por censos demográficos (levantamentos que
pesquisam todos os indivíduos de uma população) foram
comparados entre si. O perfil obtido pelas amostras sempre
foi muito parecido com o do censo. Um exemplo destas
comparações é dado abaixo em relação à variável “religião
dos porto-alegrenses” retirado da minha dissertação de
mestrado:
|
Religião |
No Censo (1980) |
Na Pesquisa (1982) |
|
Católicos
|
83 %
|
79 % |
|
Protestantes |
6
|
8 |
|
Umbandistas |
3 |
4 |
|
Espíritas |
2 |
3 |
|
Outras |
2 |
2 |
|
Sem religião |
4 |
4 |
Outras comparações deste tipo, bem como uma detalhada
descrição das rigorosas metodologias amostrais utilizadas,
podem ser encontradas nessa dissertação. É certamente
difícil para as pessoas que não conhecem de perto estudos
como os citados avaliarem o quão detalhadamente os
questionários aplicados investigam as atitudes e o alcance
da consciência política dos entrevistados, tanto em relação
ao sistema sócio-político como um todo, quanto em relação a
um grande número de questões mais específicas.
Não se tratam de estudos rápidos com meia dúzia de questões
fechadas, como não raro são realizados por institutos
dedicados a aferir vários aspectos da opinião pública. São
estudos cujos questionários incluem muitas questões abertas,
e que são aplicados por pessoas treinadas para realizarem
estas entrevistas.
Passemos, então, ao exame dos dados empíricos selecionados,
os quais são apenas uma pequena parcela da grande quantidade
de dados apresentados nas obras mencionadas. Estas obras,
por sua vez, também tiveram que selecionar uma pequena
parcela dentre a totalidade dos dados brutos relevantes
gerados pelos levantamentos amostrais.
O Perfil dos Níveis de
Consciência nos EUA
A distribuição da população norte-americana dentro dos cinco
estratos ou níveis de abrangência conceitual resultante das
pesquisas de Converse e seus colegas, e que aparece nas
publicações mencionadas publicadas em 1960 e 1964 (que se
tornaram clássicos nesta área de estudos), encontra-se no
quadro mostrado a seguir:
– Distribuição da População Eleitoral Total e dos
Votantes nos EUA, por Níveis de Abrangência Conceitual
(a distinção entre população total e votantes deve-se ao
fato do voto não ser obrigatório nos EUA; o voto obrigatório
é uma prática usada em alguns países, geralmente do Terceiro
Mundo, a exemplo do Brasil).
|
Níveis
|
População Total |
Votantes |
|
(1) Ideólogos |
2,5 % |
3,5
% |
|
(2) Quase-Ideólogos |
9 |
12 |
|
(3) Interesse de Grupo |
42 |
45 |
|
(4) Natureza dos Tempos |
24 |
22 |
|
(5) Sem Conteúdo Político |
22,5 |
17,5 |
Uma compreensão mais plena da enorme relevância teórica e
prática dos dados revelados por este quadro talvez somente
seja possível após o exame do conjunto de outros dados que
examinaremos mais adiante, ou mesmo somente após as análises
dos próximos capítulos acerca da importância das premissas a
respeito dos seres humanos aqui apresentadas para a solução
dos graves problemas enfrentados pela humanidade.
Mesmo assim, se apenas levarmos em conta que esta é uma
distribuição que revela o perfil do alcance da consciência
política da população dos EUA, que é uma das nações mais
ricas do planeta, e que as nações mais pobres certamente
apresentarão uma distribuição bem mais carregada nos
estratos de mais baixa consciência (como veremos para o caso
do Brasil), então, somente este primeiro vislumbre já nos
mostra que apenas uma pequena parcela da população possui um
nível relativamente alto de informações e de alcance
conceitual abstrato. Este simples fato significa uma
fortíssima corroboração acerca da existência de grandes
diferenças de abrangência na compreensão da realidade social
entre diferentes grupos da população como um todo.
Vimos no quadro anterior que apenas 2,5 % da população
norte-americana pode ser considerada como tendo um nível
razoável de compreensão quanto às principais correntes de
pensamento sócio-político, ou quanto às grandes questões
políticas de âmbito nacional e internacional. Quem conhece
bem estas pesquisas sabe perfeitamente que mesmo isto
implica em uma substancial dose de boa vontade na
classificação. Contudo, mesmo que estas pesquisas, da maior
seriedade e rigor quantitativo, estivessem muito erradas e
este percentual fosse duplicado para 5 %, ou mesmo
quadruplicado para 10 % (o que, certamente, já se constitui
em um exagero absurdo), ainda assim teríamos uma proporção
de 1 para 9 (10 % contra 90 %), o que não alteraria
fundamentalmente o panorama.
Portanto, estes dados sobre os níveis de conceitualização da
população dos EUA são, desde logo, muito instrutivos.
Segundo Philip Converse os dados desse quadro deveriam ser “contracenados
com a suposição usual da elite de que uma significativa
maioria do público apreende os principais aspectos da
realidade sócio-política de forma semelhante aos mais
altamente educados.” (Converse, 1964, p. 218)
Estes dados também devem ser contracenados com as teorias
que supõem que estas diferenças ideacionais podem ser
substancialmente transformadas com relativa facilidade. Nos
referimos, sobretudo, à concepção marxista para a qual a
consciência humana é um mero produto das circunstâncias
históricas e materiais a que estiver submetida. Ora, estes
dados, em se tratando de um país como os EUA, dos mais
opulentos e com um sistema educacional que abrange
praticamente a totalidade da população, são reveladores de
como estas transformações ideacionais não ocorrem com a
facilidade que esta corrente de pensamento acredita.
A Influência das
Circunstâncias Materiais
Embora não disponhamos de dados empíricos sobre a realidade
ideacional da população da União Soviética (agora extinta),
não é difícil afirmar que esta realidade não seria em
hipótese alguma melhor do que a da população dos EUA. Isto
depois de sete décadas de uma organização político-econômica
de inspiração marxista. Ora, não pode haver melhor
demonstração histórica do que esta de que as mudanças
ideacionais na massa são processos temporais lentíssimos.
Com isto não estamos procurando negar que as circunstâncias
materiais exercem uma influência significativa sobre o
desenvolvimento da consciência humana. Trata-se, isto sim,
de afirmar que existem outros fatores psicológicos que estão
na base das grandes diferenças de consciência que observamos
na população e que os pensadores materialistas não costumam
considerá-los apropriadamente. E que em relação a estas
grandes diferenças de consciência estes outros fatores
psicológicos são os principais (não importa o quão pouco
sejam conhecidos cientificamente). Assim, quanto às grandes
diferenças ideacionais na população, as circunstâncias
materiais se constituem em fatores que, embora influenciem,
não são os principais.
Cabe relembrar a este respeito a parábola bíblica do
semeador, já anteriormente citada. Se a semente cair sobre
as rochas ou em terra pouco profunda, ela não poder ter um
desenvolvimento favorável. Isto diz respeito, é claro, à
influência inegável do meio ambiente material. Mas mesmo
entre aquelas que caírem em terra fértil e profunda, umas
darão frutos a trinta por um, outras a sessenta por um, e
ainda outras a cem por um. Ou seja, mesmo quando as
condições do ambiente material forem muito boas para todos –
e evidentemente o Humanitarismo luta por isto – ainda assim
há fatores psicológicos (ou intrínsecos às qualidades
latentes da semente, que simboliza a realidade
psico-espiritual do homem) que implicariam na manifestação
de grandes diferenças de capacidades, sobretudo intelectuais
e morais, entre os membros da coletividade humana.
As Características dos
Diferentes Níveis de Consciência
Antes de examinarmos os dados sobre o percentual de cada um
destes estratos no Brasil, analisaremos alguns quadros que
visam mostrar mais claramente o perfil das diferenças
ideacionais (de abrangência da realidade sócio-política e da
quantidade de informações sobre esta realidade) entre os
cinco estratos dados por Converse e seus colegas, que foram
descritos acima. Estes quadros são apenas alguns dos vários
apresentados na minha dissertação antes mencionada, que
trabalhou especialmente sobre estas diferenças ideacionais.
A pesquisa de campo que gerou os dados brutos desta
dissertação foi realizada simultaneamente em várias capitais
do Brasil. Ela foi elaborada e aplicada por pesquisadores de
um grupo das principais universidades deste país. Os dados
que apresentaremos a seguir dizem respeito a Porto Alegre, e
ali os dados brutos foram gerados pela UFRGS (Universidade
Federal do Rio Grande do Sul).
Os níveis de abrangência conceitual de Converse aparecem,
por economia de espaço, apenas como numerais romanos, de I a
V; na ordem de maior para menor abrangência conceitual. Ou
seja: (I) Ideólogos; (II) Quase-Ideólogos; (III) Interesse
de Grupo; (IV) Natureza dos Tempos; (V) Sem Conteúdo
Político.
Quantidade de Informações
Sobre Política
O primeiro quadro abaixo nos mostra, em termos percentuais,
a freqüência com que os indivíduos de cada um destes
cinco níveis de abrangência costuma ler, em jornais,
notícias sobre política:
|
Níveis |
Com
muita
freqüência |
De vez em
quando |
Nunca
lê
sobre política |
|
(I) |
100 % |
0 % |
0 % |
|
(II) |
81 |
19 |
0 |
|
(III) |
58 |
26 |
16 |
|
(IV) |
29 |
30 |
41 |
|
(V) |
7 |
23 |
70 |
Este primeiro quadro já se constitui em um indicador muito
nítido a respeito do grau de interesse e de informação sobre
a realidade sócio-política nos estratos dos diferentes
níveis de consciência na população. Estes percentuais
mostram claramente o rápido declínio deste interesse e da
quantidade de informações à medida que descemos na escala de
abrangência conceitual. Eles confirmam o que Converse chamou
de “agudo e monotônico declínio” na seguinte citação:
“A classificação dos níveis realizada em bases algo a priori
foi corroborada por análises adicionais, as quais
demonstraram que medidas independentes de informação
política, educação e interesse político, todas mostraram
agudo e monotônico declínio à medida que se descia nos
níveis na ordem sugerida.” (Converse, 1964, p. 217)
Os percentuais, é claro, são relativos a cada um dos níveis,
e isto confere aos dados deste e dos seguintes quadros uma
relevância que praticamente independe do local em que foram
pesquisados. Eles dizem respeito às características de cada
estrato e, por esta mesma razão, se constituem em muito boas
aproximações para revelar o perfil de cada um destes
estratos em qualquer lugar do mundo. Também por esta razão
são tão reveladores a respeito das diferenças existentes
dentro da humanidade. O que mudará apreciavelmente entre os
diferentes países será o percentual relativo de cada um dos
estratos dentro da população como um todo, conforme veremos
depois ao compararmos os dados dos EUA com os dados de Porto
Alegre.
Graus de Interesse por
Política
O “agudo e monotônico declínio” fica mais gráfico
ainda ao examinarmos o quadro seguinte, que mostra as
respostas obtidas para uma pergunta direta:
– “De um modo geral, o(a) Sr.(a) se interessa por
política?”
|
Níveis |
Muito |
Pouco |
Não se Interessa |
|
(I) |
89 % |
11 % |
0 % |
|
(II) |
41 |
47 |
12 |
|
(III) |
23 |
55 |
22 |
|
(IV) |
7 |
43 |
50 |
|
(V) |
2 |
2 |
86 |
Poucos quadros poderão ser mais esclarecedores do que este
acima, a respeito das diferenças existentes dentro do perfil
da consciência sócio-política da população como um todo. Se
somarmos os dados das colunas dos que declararam ter pouco
interesse pela realidade política do seu país, com os dados
dos que responderam não ter nenhum interesse pela mesma, o
crescimento do desinteresse por estas questões que
geralmente, como disse Converse, são abrangentes e
abstratas, cresce de forma muito aguda de 11 % entre os
Ideólogos, para 59 % entre os Quase-Ideólogos, 77 % no nível
Interesse de Grupo, 93 % no nível Natureza dos Tempos e,
finalmente, 98 % no nível Sem Conteúdo Tipicamente Político.
Votaria se Não Fosse
Obrigatório?
O seguinte é outro quadro revelador, pois mostra as
respostas à questão de se a pessoa iria votar mesmo que o
voto não fosse obrigatório. Cabe esclarecer a algum
leitor de fora do Brasil que nesse país o voto é
obrigatório, como um imposto que o cidadão deve recolher
compulsoriamente. Estando sujeito a uma multa e outras
sanções caso falte com essa obrigação.
|
Níveis |
Sim,
votaria |
Não
votaria |
|
(I) |
100 % |
0 % |
|
(II) |
97 |
3 |
|
(III) |
82 |
18 |
|
(IV) |
65 |
35 |
|
(V) |
34 |
66 |
É quase desnecessário dizer que esta prática do voto
obrigatório é muito nociva para o país. Ela desqualifica
ainda mais o eleitorado que, mesmo sem ela, já é
tremendamente desqualificado em se tratando de questões
abrangentes, conforme estes quadros estão a mostrar de forma
clara. Esta questão do voto obrigatório já é um bom exemplo,
dentre outros tantos que posteriormente examinaremos, de
problemas que têm sua origem na ausência de uma correta
perspectiva acerca das principais características humanas.
No entanto, não deveria causar surpresa o fato do voto
obrigatório ter sido apoiado por tanto tempo quer pela elite
de direita, quer pela elite de esquerda nesse país, uma vez
que a perspectiva sobre os seres humanos que estamos
apresentando é conflitante tanto com a filosofia liberal,
quanto com a filosofia marxista. Podemos admitir que em
alguns casos o voto obrigatório tenha sido defendido por
interesseira esperteza, mas, ao que tudo indica, na grande
maioria dos casos este apoio se deveu à mera ignorância dos
seus efeitos líquidos da maior nocividade.
Conhecimento Sobre Eleições
Diretas
Outro quadro revelador dos limites da abrangência da
compreensão dos eventos sócio-políticos pela massa é o
seguinte, o qual tabula as respostas à questão:
–
“Este ano nós vamos ter eleições diretas para governador.
O(a) Sr.(a) poderia me dizer o que entende por eleição
direta?”
|
Níveis |
Resposta correta |
Resposta errada
e não sabe |
|
(I) |
100 % |
0 % |
|
(II) |
78 |
22 |
|
(III) |
57 |
43 |
|
(IV) |
50 |
50 |
|
(V) |
26 |
74 |
Em 1982 estávamos no Brasil em pleno período da chamada
abertura política. Um período de transição entre a ordem do
autoritarismo ou ditadura militar para a ordem
democrática-liberal, e até então os governadores dos estados
não eram eleitos pelo voto direto. Neste ano pela primeira
vez depois do regime militar os governadores seriam eleitos
diretamente. Era, portanto, um fato político da maior
notoriedade e importância dentro da moldura política da
nação. Não obstante, os números deste quadro mostram que
grande parte da população falha em estar informada mesmo
sobre uma questão politicamente tão trivial quanto esta.
Se somarmos todos os que declararam não saber com os que
arriscaram responder mas deram uma resposta errada, chegamos
a um percentual de 46 % da população eleitoral, contra os 54
% que responderam corretamente. Isto é, quase a metade da
população não possuía uma informação tão elementar.
Conhecimento Sobre Esquerda
e Direita
Naturalmente, quando a questão é mais abstrata o número
total dos que desconhecem é bem maior ainda. Isto é o que
podemos ver no quadro seguinte com os dados sobre a questão:
–
“O que o(a) Sr.(a) entende por esquerda e direita em
política?”
|
Níveis |
Resposta correta |
Resposta errada
e não sabe |
|
(I) |
100 % |
0 % |
|
(II) |
97 |
3 |
|
(III) |
75 |
25 |
|
(IV) |
30 |
70 |
|
(V) |
9 |
91 |
No caso desta questão, somando-se todos os que declararam
não saber com os que deram uma resposta errada chegamos a um
percentual de 61 % da população. Portanto, apenas 39 %
possuíam este tipo de informação em 1982 em Porto Alegre,
que é uma das capitais com melhores índices de escolaridade
no Brasil. É importante observarmos as diferenças que
aparecem neste quadro entre os dados dos grupos I, II e III,
em relação aos grupos IV e V. Enquanto nos grupos I e II
quase ninguém desconhece o que é esquerda e direita em
política, no grupo III ainda apenas 25 % desconhecem. Mas a
situação é completamente diferente a partir do grupo IV onde
já 70 % desconhecem, ou no grupo V onde 91 % desconhecem.
As Diferenças Entre EUA e Brasil (Porto Alegre)
Esta grande diferença entre estes três primeiros grupos e os
dois últimos é da maior importância para podermos ter um
perfil realístico da abrangência da consciência
sócio-política da população. Isto nos permite compreender,
por exemplo, porque nos países ricos a população parece ter
um grau de racionalidade muito maior do que em países como o
Brasil. Acontece que nestes países o voto não é obrigatório,
e já vimos anteriormente que nestas condições os grupos nos
quais um grande percentual não vai votar são apenas os
grupos IV e V. Se somarmos a isto o fato de que nestes
países a proporção dos três primeiros grupos é
significativamente maior, sobretudo o terceiro, o do
“Interesse de Grupo”, como podemos observar na comparação do
quadro seguinte, então entenderemos claramente porque nos
países ricos, como os EUA, o comportamento eleitoral e,
conseqüentemente, os resultados eleitorais apresentam uma
racionalidade bem maior.
Não estamos pretendendo nem de longe afirmar que o mero
instituto do voto obrigatório é a causa de todos os nossos
problemas. De modo algum! Estamos apenas tomando este fato
para exemplificar que a perspectiva aqui apresentada, a qual
leva em conta a unidade essencial dos seres humanos, bem
como suas grandes diferenças de capacidades manifestadas,
nos permite uma visão muito mais clara a respeito da
realidade sócio-política das nações.
Vejamos, então, qual o perfil da distribuição do
eleitorado de Porto Alegre dentro desses cinco grupos de
alcance conceitual. Para facilitar as comparações
repetiremos nesse quadro os dados relativos à população dos
EUA, já apresentados anteriormente:
|
Níveis |
Nos
Estados Unidos |
No
Brasil (Porto Alegre) |
|
Ideólogos |
2,5 % |
2 % |
|
Quase-Ideólogos |
9 |
8 |
|
Interesse de Grupo |
42 |
21,5 |
|
Natureza dos Tempos |
24 |
31,5 |
|
Sem Conteúdo Político |
22,5 |
37 |
Antes de examinarmos os números deste quadro precisamos
comentar dois aspectos. Em primeiro lugar, cabe observar que
os dados para os EUA publicados por Converse e seus colegas
(1960), e por Converse (1964) dizem respeito ao final dos
anos cinqüenta. Já os dados da minha dissertação (1984)
dizem respeito ao início dos anos oitenta (1982). Esta
diferença de um período de mais de duas décadas pode alterar
um pouco a situação a favor dos EUA.
A segunda observação é que os números para Porto Alegre são
certamente melhores do que seriam os números de uma
distribuição destes grupos para o Brasil como um todo. A
análise de outras pesquisas de diferentes fontes nos permite
estimar que os números para Porto Alegre deverão ser
semelhantes aos das outras grandes capitais brasileiras,
como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte etc., e que a
situação nestas capitais é significativamente melhor do que
a situação do Brasil como um todo.
Tomemos apenas um dado a este respeito. Em 1986, ano em que
se elegeu uma Assembléia Constituinte no Brasil, o Instituto
IBOPE realizou várias pesquisas para aferir o conhecimento
da população a respeito da Constituinte. Numa delas,
publicada em Zero Hora (07/05/1986), o percentual de pessoas
que não sabia responder o que era a Constituinte chegou, no
Rio Grande do Sul, a 70,5 %. Na mesma época, o IBOPE
realizou pesquisa semelhante no Nordeste e este percentual
alcançou os 90 %, e para a média nacional o IBOPE encontrou
que 82 % da população não sabiam explicar o que era a
Constituinte. Estes números são suficientes para
exemplificar a observação feita acima de que a situação para
o Brasil como um todo ser menos favorável do que aquela de
Porto Alegre apenas.
Com estas duas observações em mente, voltemos, então, para a
análise dos números do quadro com os dados para os EUA e
para Porto Alegre. A que conclusões de caráter geral este
quadro nos permite chegar? O exame destes números nos
permite observar dois fatos principais. O primeiro é que
realmente existem diferenças para melhor a favor das nações
ricas, como seria de se esperar. E que esta situação mais
favorável resultou em uma camada média expressivamente maior
do que aquela que podemos observar para Porto Alegre, e por
extensão para o Brasil.
A soma dos dois grupos de maior abrangência dá 11,5 % para
os EUA, e dá 10 % para Porto Alegre. É claro que esta não é
uma diferença importante. Muito diferente, contudo, é a
situação observada quanto ao terceiro grupo (Interesse de
Grupo), o qual é o grupo intermediário. Enquanto nos EUA
este grupo alcançou 42 %, em Porto Alegre este número foi de
apenas 21,5 %. Esta sim é uma diferença da maior
importância, a qual joga muita luz sobre a realidade
política destes países, sobretudo se levarmos em conta o que
já mencionamos antes sobre o voto não ser obrigatório nos
EUA, e ser obrigatório no Brasil.
Ou seja, os grupos I, II e III já somam a maioria da
população dos EUA (53,5 %) e se acrescermos a isto o fato de
que boa parte do grupo IV e a maioria do grupo V não vão
votar, uma vez que o voto não é obrigatório, então fica
claro porque o comportamento eleitoral em países como os EUA
apresenta maior racionalidade; maior do que já apresentaria
se o voto no Brasil também não fosse obrigatório.
Voltando às nossas conclusões gerais, esta melhor condição
observada para os EUA mostra que melhores condições de
riqueza, bem como um sistema educacional mais abrangente,
podem de fato melhorar substancialmente o perfil do alcance
conceitual na população como um todo.
Mas a segunda conclusão de caráter geral é que, apesar de
ser significativamente melhor a distribuição destes grupos
nos países ricos, as diferenças de abrangência persistem
como um dado fundamental dentro da população, mesmo nos
países ricos, que como dissemos somam apenas 1/3 da
população mundial. Que dizer, então, da sua importância no
que diz respeito aos países pobres, que somam 2/3 da família
humana?
Como já dissemos, os dados aqui apresentados se constituem
apenas de uma pequena parcela dos dados existentes nos
trabalhos citados. Contudo, eles já são suficientes para
corroborar amplamente o aspecto da diversidade como uma
característica básica, absolutamente necessária, dentro de
qualquer representação satisfatória dos seres humanos
coletivamente considerados.
O Papel Decisivo das Elites
Uma outra conclusão de caráter geral, também da maior
importância tanto teórica quanto prática, é a de que os
grupos de consciência social mais abrangente (as chamadas
elites) possuem um papel decisivo no desenvolvimento dos
processos sócio-políticos em geral, fato que lhes imputa uma
enorme responsabilidade, a qual quase sempre não é
suficientemente bem reconhecida.
Philip Converse se referiu a esta imensa responsabilidade
nos seguintes termos:
“Os amplos contornos das decisões da elite ao longo do tempo
podem depender de uma maneira vital das correntes naquilo
que é vagamente chamado de “a história das idéias”. Tais
decisões por sua vez têm efeitos sobre a massa de cidadãos
mais comuns. Mas, de qualquer participação direta nesta
história das idéias e no comportamento por ela moldado, a
massa é notavelmente inocente.” (Converse, 1964, p. 255)
Até aqui este aspecto já encontrou uma razoável
corroboração, bastando nos lembrarmos da afirmação de
Converse de que mesmo os integrantes do grupo III já não
alcançam reconhecer os efeitos de uma dada política sobre os
seus próprios grupos de interesse, a menos que se trate de
uma questão muito elementar ou óbvia. Ou seja, mesmo os
indivíduos do grupo III necessitam, para se posicionarem
politicamente, que membros da elite de sua confiança apontem
os efeitos das políticas de maior alcance – configurando o
que Converse denominou de “ideologia por procuração”.
Alguns dados adicionais, no entanto, podem corroborar mais
fortemente esta enorme influência da elite sobre a massa. Em
primeiro lugar retomemos a questão já mencionada do voto
obrigatório no Brasil. Até a presente data, infelizmente,
não há nenhum movimento consistente dentro do Congresso
visando modificar este instituto tão nocivo da nossa vida
política. Contudo, alguns anos atrás o IBGE em uma pesquisa
amostral de enorme abrangência (cuja base atingiu 300.000
entrevistados) revelou que apenas 34,5 % da população era a
favor do instituto do voto obrigatório; enquanto 56,9 % eram
contra; e 8,6 % não sabiam ou não declararam. (Publicado em
Zero Hora, em 29/10/1989)
Portanto, embora a maioria da população seja contra, as
elites pouco se importaram e até agora, quatro anos após a
publicação desta pesquisa, nada se passou, mesmo tendo neste
período ocorrido a desastrosa eleição de Fernando Collor.
Felizmente, esta influência avassaladora da elite nem sempre
se dá no sentido nocivo, como podemos observar num outro
exemplo bem conhecido, que é o da questão da pena de morte.
Várias pesquisas já mostraram que a maioria da população é a
favor desse instituto. As elites políticas, no entanto, até
agora não se curvaram a este vil aspecto da consciência da
massa, muito embora já haja um movimento de vários
congressistas neste sentido. Não que na prática já não
exista a pena de morte neste país. Ela existe ao menos para
os pobres ou miseráveis, uma vez que o extermínio de
delinqüentes, sobretudo bem jovens, é uma prática freqüente.
Outro exemplo neste sentido, também não nocivo, mas ainda
mais gráfico, foi o da legalização dos partidos comunistas.
Quando estes partidos foram legalizados no início dos anos
oitenta, após o processo chamado de “abertura política”, uma
grande maioria da população era contra esta legalização.
Este exemplo é revelador em um duplo sentido. Em primeiro
lugar, porque ele revela como a elite pode e de fato
condiciona a opinião pública quando assim o decide. Isto
porque esta atitude da população é resultado de anos de
propaganda contrária aos comunistas, e resultou em que uma
grande maioria (como abaixo veremos) se posicionasse contra
a legalização dos partidos comunistas. Este exemplo é muito
impressionante porque, como já vimos, a grande maioria da
população não tem sequer uma noção precisa do que seja
esquerda e direita em política, que dizer a respeito dos
programas dos partidos comunistas.
– “O(a) Sr.(a) é a favor ou contra a legalização do
Partido Comunista?”
|
Níveis |
A favor |
Contra |
Não sabe ou
não respondeu |
|
(I) |
67 % |
11 % |
22 % |
|
(II) |
48 |
48 |
4 |
|
(III) |
26 |
62 |
12 |
|
(IV) |
8 |
74 |
18 |
|
(V) |
5 |
56 |
39 |
Somando-se o total dos que foram a favor chegamos apenas a
15 % da população! Os que foram contra totalizaram 61,4 %,
enquanto 23,6 % declararam não saber ou não responderam.
Mas, igualmente importante no quadro acima é que ele mostra
que tão somente no nível I, dos Ideólogos, a maioria foi a
favor da legalização, pois mesmo no nível II já houve um
empate. Os números são muito ilustrativos, portanto, sobre a
influência avassaladora da elite. Entre os Ideólogos uma
forte maioria era a favor, e a legalização acabou ocorrendo,
sem que nem um pequeno protesto fosse ouvido, a despeito de
uma vigorosa maioria da população se declarar contra.
Esses números ensejam a oportunidade para mostrar um exemplo
a respeito da fidedignidade, da seriedade e da precisão dos
dados aqui apresentados sobre as atitudes e a abrangência da
consciência sócio-política da população. Isso porque outra
fonte, completamente independente, de pesquisa (IBOPE, Isto
É, Gazeta Mercantil e TV Bandeirantes) realizou um
levantamento dois anos depois (em 1984), nas regiões
metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro, e entre as
questões aplicadas havia uma igual, assim formulada: – “É
a favor ou contra a legalização dos partidos comunistas no
Brasil?”. Nessa pesquisa chegou-se aos seguintes
números:
| A favor |
21,5 % |
| Contra |
59,8 % |
| Nem a favor, nem contra |
14,1 % |
| Não sabem / não opinaram |
4,6 % |
Estes números foram publicados na revista “Isto É” nº. 407,
de 10/10/1984. A semelhança entre os dados é impressionante:
– 61,4 % foram contra na pesquisa da UFRGS em Porto Alegre,
1982; e 59,8 % declararam-se contra na pesquisa do IBOPE
para São Paulo e Rio de Janeiro, em 1984.
A Atualidade dos Dados
Outra observação pertinente é que muitas pessoas, por
ignorarem a natureza dos fatos aqui apresentados, sempre
tendem a pensar que nos últimos anos as coisas podem ter
mudado muito em termos da consciência social da população.
Não raro dizem que como tudo tem mudado tão rapidamente hoje
em dia, ou então, que como ocorreu tal ou qual evento
importante, ou ainda que como o país tem se tornado cada vez
mais urbano e industrializado, e que, em vista destas
razões, informações de dez anos atrás não merecem muito
crédito.
Ora, os números sobre a realidade da consciência
sócio-política da população de um país como os EUA já
deveriam ser suficientes para nos mostrar que estas
realidades ideacionais não mudam senão em escala
relativamente limitada, e que mesmo estas mudanças limitadas
ocorrem lentamente. Isto porque o patamar de riqueza,
urbanização e industrialização alcançados pelos EUA trinta
anos atrás, o Brasil como um todo somente alcançará sabe
Deus daqui a quantas décadas.
Uma simples projeção pode nos auxiliar a visualizar melhor
esta questão. Se projetarmos um crescimento econômico
nacional bem razoável de 4 % ao ano, com um crescimento
populacional bem modesto para os nossos padrões de 1,5 % ao
ano, teremos um incremento real de riqueza média per
capita/ano próximo dos 2,5 %. Ou seja, levaríamos mais de 80
anos para sair dos cerca de 2.000 dólares de renda per
capita/ano do Brasil de nossos dias, para alcançarmos os
15.000 dólares per capita/ano que os EUA atingiram décadas
atrás.
Mesmo assim, talvez seja oportuno apresentarmos alguns dados
bem recentes e de outras fontes que mostram como estas
coisas, feliz ou infelizmente, não mudam quase nada em
questão de poucos anos. Vejamos os números de uma pesquisa
da DataFolha, que entrevistou 5.260 pessoas em dez capitais
brasileiras, em outubro de 1987, publicada na Folha de São
Paulo, em 1/11/1987. A pergunta era:
– “Você sabe qual foi o primeiro país a fazer uma
revolução socialista?”
|
Respostas |
Percentuais |
|
Rússia/URSS |
24 % |
|
Outros países errados |
9 % |
|
Não sabe/não lembra |
67 % |
|
Total
|
100 % |
Isto é, em dez capitais, apenas 24 % é que sabiam a resposta
correta para esta questão. Pode-se argumentar que se trata
de uma questão um tanto sofisticada, e que mede muito pouca
coisa. Mesmo assim, ela nos permite perceber claramente (ao
compararmos este coeficiente de acerto com os cerca de 30 %,
no Rio Grande do Sul, que em 1986 sabiam o que era uma
Constituinte; ou com os 39 %, em Porto Alegre, que em 1982
sabiam o significado de esquerda/direita em política) que
todos estes números repetem um desenho muito constante, e
que não se tratam de números fantasiosos ou pinçados
aleatoriamente, mas sim de números que revelam uma severa
realidade, sobre a qual muito poucas pessoas se dão ao
trabalho de ponderar seriamente.
Vale a pena adicionar um outro quadro mais recente ainda,
resultado de uma pesquisa do IBOPE, que entrevistou 2.000
pessoas, em maio de 93. Esse quadro foi publicado na revista
“Veja” de 2/6/1993, com as respostas para a pergunta:
– “O(a) Sr.(a) lembra do nome do candidato e do partido em
que votou para deputado federal nas últimas eleições (final
de 1989)?
|
Respostas |
Percentuais |
|
Lembra candidato e partido |
12 % |
|
Votou só na legenda |
14 % |
|
Lembra só do candidato |
8 % |
|
Votou em branco/nulo |
17 % |
|
Não lembra em quem votou p/ dep. fed. |
49 % |
|
Total |
100 % |
Estes não são números de uma década atrás, são números de
poucos meses atrás! [o texto para publicação foi concluído
em dezembro de 1993.] Metade da população não lembra pura e
simplesmente em que candidato ou partido votou naquela que é
a eleição mais importante da nação.
Da Câmara dos Deputados dependem todas as grandes leis do
país, ou todas as principais decisões legislativas, ou
mesmo, como no caso recente, o impedimento do presidente, o
chefe máximo do poder executivo, além de tantos outros
encargos da maior responsabilidade e importância para o
país. Pois bem, com tudo isto em jogo, apenas 12 % da
população lembrava tanto do candidato quanto do partido em
que votou para deputado federal nas últimas eleições.
Se somarmos os 49 % que declararam não lembrar, com os 17 %
que votaram em branco ou anularam o voto, e mais os 8 % que
só lembram do candidato e, portanto, têm um nível de
informação tão baixo que nem sequer sabem a que partido
pertencia o candidato em quem votaram, chegaremos a 74 %!
Sem falar dos que votaram apenas em uma legenda partidária.
Isto em maio de 1993. Dificilmente poderia haver
corroboração melhor do que esta a respeito da validade e
atualidade dos dados gerais aqui apresentados.
Tendo apresentado este panorama acerca da unidade inerente à
espécie humana, bem como acerca das diferenças que
caracterizam a consciência política da população, podemos
agora partir para a etapa seguinte de nossa argumentação.
Nos próximos capítulos contracenaremos este panorama com as
premissas das correntes de pensamento dominantes na
atualidade, bem como com os modelos de organização política
derivados destas correntes neste final do século XX.
Daremos mais ênfase à crítica do modelo derivado
do Liberalismo – a democracia liberal – pois este é aquele
mundialmente dominante em nossos dias, além de ser o modelo
que hoje está organizando a vida política brasileira.
Procuraremos evidenciar que os grandes problemas enfrentados
pela humanidade estão, de fato, relacionados com os
equívocos inerentes às premissas das correntes de pensamento
dominantes (Liberalismo e Marxismo) e à conseqüente
incompetência de seus modelos de organização política.
|