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4 – O LIBERALISMO:
PREMISSAS E SISTEMA POLÍTICO
As Correntes de Pensamento
Dominantes
Não há dúvida quanto ao fato de que na segunda metade deste
século XX as correntes de pensamento que podemos
genericamente referir como Liberalismo e Marxismo foram
aquelas dominantes. Com a vitória dos Aliados e a derrota do
Nacional-Socialismo (Nazismo) alemão, do Fascismo italiano e
do regime autoritário japonês na Segunda Guerra Mundial, o
Liberalismo e o Marxismo passaram a dominar amplamente o
cenário das idéias sócio-políticas a nível mundial.
No Brasil, após a Segunda Guerra, com o término do regime
autoritário do Estado Novo de Getúlio Vargas (que durou de
1937 a 1945) instaurou-se uma ordem liberal que perdurou até
o golpe de 1964 quando se iniciou um período de cerca de
vinte anos de uma ordem militar autoritária. Mesmo neste
período autoritário, contudo, o discurso dominante era de
que a ordem militarista visava garantir a preservação dos
valores culturais do Ocidente, como a liberdade e a
democracia, os quais estariam ameaçados pelo totalitarismo
de cunho marxista ou comunista, bem como construir as
pré-condições para o funcionamento de uma democracia
liberal. Esta corrente de pensamento que deu sustentação ao
período de autoritarismo militar ficou conhecida como
Ideologia da Segurança Nacional.
A partir, então, de meados dos anos 80 reinstaurou-se um
regime democrático-liberal, com a eleição de uma assembléia
constituinte em 86, cujos trabalhos foram concluídos em 88.
Este processo culmina com a eleição direta de um presidente
em fins de 1989.
Durante esta segunda metade do século XX existiu no Brasil
uma oposição minoritária de cunho socialista, influenciada
em maior ou menor escala pela corrente de pensamento
marxista, a exemplo dos partidos socialistas e comunistas.
Como sabemos, essa corrente de pensamento também é
expressiva dentro de outros partidos a exemplo do Partido
dos Trabalhadores (PT), do mesmo modo que no meio cultural e
acadêmico. A corrente do pensamento marxista, portanto,
também merece ser aqui examinada.
No presente momento da realidade política brasileira (final
de 1993), mesmo com as mudanças ocorridas no leste europeu e
o desmembramento e as transformações liberalizantes da
antiga URSS e com a conseqüente hegemonia avassaladora do
pensamento e dos modelos de organização política de cunho
liberal, podemos observar que o pensamento marxista ainda é
praticamente a única alternativa ao pensamento liberal,
embora uma alternativa bastante debilitada na atualidade.
O pensamento marxista também exerce uma certa influência
dentro das posturas de cunho social-democrata, as quais aqui
estão incluídas dentro da vertente liberal, uma vez que não
questionam as instituições fundamentais da democracia
liberal, porém apenas lutam por políticas econômicas e
sociais de caráter menos excludente ou mais distributivista,
dentro das regras do jogo democrático-liberal.
Premissas Equivocadas
A hipótese central deste texto, como dissemos antes, é a de
que tanto o Liberalismo quanto o Marxismo estão
fundamentados em premissas falsas a respeito dos principais
atributos do ser humano, individual ou coletivamente
considerado. Convém ressaltar que isto também é verdadeiro
em relação às outras correntes de pensamento que foram
importantes neste século, a exemplo do Fascismo e do
Nacional-Socialismo nazista, cujas premissas falsas não
serão aqui criticadas pelo simples fato de não serem hoje
muito expressivas.
São estas falsas concepções acerca do ser humano, como já
foi dito, que se projetam sob a forma de princípios
ético-morais equivocados, bem como sob a forma de modelos de
organização política que estão na base dos grandes problemas
enfrentados pela humanidade. Por esta razão devemos fazer um
esforço de síntese a fim de compreendermos a essência das
concepções de ser humano e de humanidade que nucleiam as
correntes de pensamento, os valores ético-morais e os
modelos de organização política do Liberalismo e do
Marxismo, em torno das quais se desenvolvem as demais
principais instituições sociais da maioria dos países na
atualidade.
Como já dissemos antes, nos alongaremos um pouco mais no
exame das premissas e das instituições centrais do
Liberalismo do que naquelas do Marxismo, pela simples razão
de que em nossos dias as instituições derivadas do
Liberalismo tornaram-se amplamente dominantes no mundo.
Os Primórdios do Liberalismo
O Liberalismo, tanto como uma ampla corrente na história das
idéias sociais, quanto como um conjunto de instituições
sociais derivadas destas concepções fundamentais, trata-se
de um fenômeno, infelizmente, um tanto complexo. Mesmo num
“Dicionário de Política” escrito por grandes acadêmicos como
Norberto Bobbio, o verbete “Liberalismo” inicia-se com a
observação – “Uma Definição Difícil”.
Talvez a principal dificuldade para compreendermos os
fundamentos do Liberalismo resida no fato de que se trata de
uma corrente de pensamento com cerca de três séculos de
existência (John Locke, por exemplo, publica o seu “Ensaio
sobre o Governo Civil” em 1690) e que, portanto, atravessou
períodos de marcantes transformações do cenário mundial,
como as Revoluções Industriais. Naturalmente, ao longo deste
dilatado período tanto o pensamento quanto as instituições
liberais sofreram significativas transformações, em
diferentes países e em diferentes momentos no tempo. Estas
transformações, então, é que tornam difícil uma definição
precisa e sintética.
Em nossos dias, não é muito difícil percebermos que as
grandes instituições políticas derivadas do Liberalismo
dizem respeito à democracia-liberal, a qual analisaremos
adiante. Contudo, no início do Liberalismo os seus
princípios foram aplicados sob regimes onde as instituições
monárquicas ainda eram dominantes e deram origem a regimes
onde somente tinham direito de acesso aos mecanismos de
representação política aqueles que atendessem certas
exigências ou franquias, como o fato de possuírem
propriedades ou uma renda mínima. Os regimes influenciados
pelo Liberalismo em seus primeiros tempos, portanto, não
eram democráticos no sentido hoje usualmente atribuído à
palavra democracia, onde se supõe uma participação de
praticamente toda a população adulta.
O Homem é o Lobo do Homem
No entanto, um núcleo de premissas teóricas e de
instituições propriamente liberais deve ter perdurado ao
longo de todas estas transformações de modo que o modelo
político hoje dominante no mundo ainda denomine-se
“democracia liberal”. A seguir, então, procuraremos expor
sinteticamente este núcleo o qual, como dissemos antes, em
termos teóricos deve necessariamente estar relacionado com
uma determinada concepção acerca das características
fundamentais do ser humano.
O Liberalismo surge como uma reação à ordem absolutista,
sendo que um dos últimos grandes teóricos do Absolutismo foi
Thomas Hobbes (autor da famosa obra “O Leviatã”), o qual
concebia o ser humano como naturalmente egoísta, senão
violento, conforme podemos ler na citação que segue:
“Para chegar a justificar o governo absoluto, Hobbes parte
da descrição do estado de natureza que, segundo se
acreditava comumente por esta época, teria precedido o
estado social. Encontra-se, sem nenhuma dúvida, no curso
dessa descrição, traços do primeiro livro de história de
Tucídides, no qual este autor conta que numa época longínqua
os gregos viviam de rapinagens e de violências, e que a
única lei era a do mais forte.
“Tais eram, segundo Hobbes, os costumes de todos os homens
primitivos. Desta forma, no seio destes povos, nem os homens
nem os bens gozavam jamais de segurança. Cada um devia se
defender contra a violência dos outros, e cada homem era
lobo para os outros homens, homo homini lupus. Por
toda parte irrompia a luta de cada um contra todos –
bellum omnium contra omnes.
“A fim de sair desse estado caótico, todos os indivíduos
teriam cedido todos os seus direitos ao Estado. Cada qual
teria colocado suas forças ao serviço estatal, a fim de que
este tivesse a possibilidade de por termo às violências de
todos e remediar este estado de coisas insuportável.” (G.
Mosca e G. Bouthoul, “História das Doutrinas Políticas”, p.
189)
“Leviatã” trata-se do nome de um animal feroz e muito
poderoso, ao que tudo indica o crocodilo do Nilo, que é
descrito na Bíblia, nos cap. 40 e 41 de Jó, e sobre o qual
ele escreve: “Não há poder sobre a terra que se lhe compare,
pois foi feito para que não temesse a nenhum.” (Jó, 41:24).
É claro que Hobbes, ao valer-se da figura do Leviatã,
sustenta que um papel benigno é desempenhado por um poder
assim (o do monarca absoluto) o qual, ao atemorizar a todos,
pode “por termo às violências de todos e remediar este
estado de coisas insuportável”.
Nos primórdios da corrente do Liberalismo, a exemplo do que
se encontra nos escritos do inglês John Locke, considerado
como um dos grandes formuladores das origens do Liberalismo,
parte-se da mesma concepção de homem como um ser basicamente
egoísta, mas chega-se a conclusões exatamente opostas e,
diga-se de passagem, muito mais lógicas que as de Hobbes. Ou
seja, se todo o homem é lobo dos demais homens, então de
pouco nos adiantar termos um Leviatã pois, logicamente, este
também será um lobo, preocupando-se apenas com os seus
interesses e dos que lhe são caros, às expensas do bem-estar
de muitos outros que seriam por ele explorados em benefício
do grupo detentor do poder central. De fato, após tantos
anos de predomínio das idéias liberais, quase ninguém mais
associa o Leviatã com um poder que exerce um papel
socialmente benéfico, mas sim com um monstro aterrador da
maior malignidade.
Os Três Poderes: Uma Ordem de
Contrapesos
E é exatamente isto que muitos dos primeiros liberais
denunciavam, e contra o que se insurgiam, pois o que podiam
observar era justamente uma corte muito faustosa e cheia de
privilégios, enquanto que a situação era de miséria entre a
população menos favorecida. Os primeiros liberais
enfrentaram, deste modo, uma espécie de dilema: se não
houvesse um poder central maior os homens logo cairiam na
barbárie, mas caso houvesse um poder maior, este (também
sendo lobo) acabaria explorando os seus semelhantes.
A resposta destes pensadores a este dilema deu forma às
instituições liberais fundamentais, as quais, depois de
muitas lutas, finalmente resultaram amplamente vencedoras. E
embora tenham se transformado significativamente, conforme
antes mencionamos, em seus traços essenciais estas
instituições perduram até os nossos dias. Que resposta foi
esta? Foi a de criar-se o que na ciência política chama-se
de uma ordem de “contrapesos”. Ou seja, alguém apenas faria
as leis, outro apenas seria responsável pela execução destas
leis, e um terceiro apenas ficaria responsável por julgar se
estas leis estavam sendo cumpridas ou não. Uma ordem, como
vemos, fundamentada numa desconfiança básica do homem e da
humanidade, onde o primeiro e o segundo controlam o
terceiro; o segundo e o terceiro controlam o primeiro; e
assim por diante, formando um equilíbrio racional, como que
de contrapesos.
O Estado Mínimo
Temos aí a origem da concepção dos três poderes fundamentais
separados; hoje denominados legislativo, executivo e
judiciário. Temos aí também a origem da concepção de um
“estado mínimo”, que até hoje encanta muitos liberais. Já
que existe a necessidade de um poder central maior, que ele
seja o menor possível. E, mesmo este, sempre dentro de um
esquema de contrapesos. Tudo isto logicamente embasado numa
desconfiança fundamental, que visa garantir que ninguém
empunhe um poder muito grande, porque se todo homem é lobo
de todo homem, então, “todo o poder corrompe, e o poder
absoluto corrompe absolutamente”, que é uma das máximas
preferidas dos liberais até os nossos dias.
Vejamos outra citação da “História das Doutrinas Políticas”,
antes citada, a qual corrobora o panorama sintético recém
apresentado sobre os primórdios do Liberalismo:
“John Locke, nascido em 1632, morto em 1704, personificou as
tendências liberais opostas às idéias absolutistas de
Hobbes. Seu “Ensaio sobre o Governo Civil” foi publicado em
1690, menos de dois anos depois da segunda revolução
inglesa, que havia ocorrido no fim de 1688. Compreende-se
que, escrevendo em seguida a um acontecimento dessa
importância, um escritor político tivesse necessidade de
tomar posição e de tornar conhecida sua opinião a respeito
da questão. Locke justifica a revolução.
“O “Ensaio sobre o Governo Civil” é dividido em duas partes.
Na primeira ele se dá ao trabalho de refutar Filmer. Na
segunda, partindo das mesmas hipóteses que Hobbes, ou seja,
admitindo um estado de natureza seguido de um pacto social
(idéia comum a vários escritores dos séculos XVII e XVIII),
chega a conclusões opostas às sustentadas por Hobbes. (...)
“É a Locke que se deve a elaboração quase completa da teoria
dos três poderes fundamentais, mais tarde desenvolvida por
Montesquieu.” (idem acima, p. 191-192)
Um Homem,
Um Voto
É importante notarmos que ao longo de sua história a
principal modificação que podemos observar na prática dos
modelos de inspiração liberal foi a gradual expansão das
franquias que de início eram exigidas para o exercício do
voto, até que chegou-se, geralmente já em pleno século XX,
ao chamado voto universal, o qual é hoje uma das
características das democracias liberais. Esta gradual
expansão em grande medida deveu-se às transformações pelas
quais passavam as sociedades nacionais na Europa e na
América do Norte, cada vez mais industrializadas, e que
desencadearam movimentos operários sufragistas no século
passado e nas primeiras décadas deste século.
Porém, quanto às suas outras instituições básicas, a exemplo
dos três poderes fundamentais, da ordem jurídica gerada por
um pacto social, da economia de mercado (com ampla liberdade
para os agentes econômicos), e da garantia de direitos
individuais e de outras liberdades consagradas pela tradição
liberal (a liberdade de palavra, de associação, da qual
decorre uma ordem pluralista onde existem vários partidos
políticos etc.), todas estas instituições encontram-se até
os nossos dias preservadas sem modificações essenciais.
Em nosso século, então, devemos acrescentar a estas
principais instituições liberais a do voto universal, não
mais limitado por franquias pecuniárias, pelo sexo, ou
quaisquer outras restrições. Isto desde há muitas décadas se
constitui em outro dos pilares dos modelos de organização de
cunho liberal, ou seja, a noção de que todos são iguais em
direitos e deveres e que, portanto, a cada indivíduo deve
corresponder um voto (“um homem, um voto”).
Mudanças com Permanência das
Premissas Fundamentais
C. B. Macpherson, autor da conhecida obra “A Democracia
Liberal: Origens e Evolução”, tenta apanhar sinteticamente
este grande movimento de transformação no Liberalismo na
passagem desta sua obra que citamos a seguir:
“Os liberais do século XVII e XVIII, que não eram
absolutamente democratas (a partir de, digamos, Locke até
Burke), admitiam plenamente as relações capitalistas de
mercado. O mesmo se pode dizer dos democratas-liberais do
início do século XIX, e veremos (no capítulo II) até que
ponto isso se aplica aos casos de Bentham e James Mill.
Depois, a partir de meados do século XIX, como veremos (no
capítulo III), os pensadores liberais tentaram combinar a
aceitação da sociedade capitalista de mercado com uma
posição ética humanista. Isso ensejou um modelo de
democracia consideravelmente diferente do de Bentham, mas
ainda implicando aceitação da sociedade de mercado.” (p. 27)
Vemos, portanto, que apesar das grandes transformações ao
longo de sua história, o Liberalismo consegue preservar o
núcleo de suas premissas fundamentais, bem como de suas
principais instituições, embora elas tenham se enquadrado
dentro da moldura de teorias um tanto diferentes. É
importante notarmos, sobretudo, que todas estas
transformações ficam dentro da concepção fundamental do
homem como um ser em última análise egoísta o qual, por
maior que sejam as suas capacidades e a sua inteligência,
sempre tratará de maximizar as suas satisfações pessoais.
Esta é a concepção genérica de ser humano que até os nossos
dias predomina dentro do pensamento liberal. Na verdade,
fora desse pano de fundo conceitual a sua instituição básica
de uma ordem de contrapesos torna-se inconsistente e
ilógica. Ou seja, fora desta matriz conceitual não faz muito
sentido uma ordem baseada em uma desconfiança universal
acerca do poder estatal, com os seus poderes fundamentais
independentes entre si, bem como com a noção de um estado
mínimo, isto é, um poder central mínimo (devido à noção de
que “todo poder corrompe”).
Ora, se todo o poder corrompe é porque todos os seres
humanos são corruptíveis. E isto ocorre porque em todos os
seres humanos predomina inexoravelmente, sobre todos as
outras características fundamentais de comportamento, a
defesa dos seus interesses particulares. Os seres humanos,
portanto, por mais inteligentes que possam ser, são
essencialmente egoístas – permanecendo assim verdadeira para
os liberais a generalização da máxima homo homini lupus.
Em vista deste estado de coisas, que faz com que todos se
inclinem, sobretudo, a buscar a satisfação dos seus
interesses privados, muitos pensadores liberais argumentaram
que um modelo de organização social composto por estas
principais instituições liberais significa a garantia de que
será atingida a maior felicidade para o maior número de
pessoas, e daí a coerência desta visão de ser humano com o
discurso da excelência insuperável do mercado capitalista,
bem como da excelência de uma ética de cunho utilitarista.
Isto é, destas premissas do pensamento liberal a respeito do
ser humano deriva-se logicamente a defesa de uma moral, ou
valores de conduta, centrada no princípio da busca pelo
maior prazer e satisfação individual. Cabe lembrar que o
Utilitarismo é uma corrente de filosofia social,
importantíssima na sustentação teórica do modelo liberal, e
que define “como fundamento das ações humanas a busca
egoística do prazer individual, do que deverá resultar maior
felicidade para maior número de pessoas, pois se admite a
possibilidade dum equilíbrio racional entre os interesses
individuais.” (do verbete “utilitarismo”, no dicionário de
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, 1986, p. 1745).
O Fim das Ideologias
Convém salientar que tanto a ética quanto o modelo de
organização política do Liberalismo são coerentes com suas
premissas e que, caso estas premissas a respeito do homem
fossem verdadeiras, esta ética e este modelo, de fato,
seriam o melhor que se poderia esperar para a humanidade.
Em vista disto, e da enorme predominância alcançada pela
democracia liberal, alguns teóricos liberais de nossos dias
chegam a defender a idéia que chegamos ao que chamam de “fim
das ideologias”. Ou seja, uma vez que este é o modelo mais
perfeito para a humanidade, aquele que assegura a maior
felicidade possível para o maior número e, como se não
bastasse, é aquele que se encontra em aplicação na grande
maioria dos países e, certamente, nos mais poderosos – que
em vista de tudo isto, teríamos chegado a um modelo
definitivo. A partir deste momento todo o desenvolvimento
futuro da humanidade se daria dentro deste modelo
significando, deste modo, um fim das lutas entre filosofias
e modelos políticos alternativos, um “fim das ideologias”.
Certamente deve causar um certo mal estar a estes pensadores
tão otimistas o fato de que, apesar de termos alcançado uma
visão definitiva (e, portanto, verdadeira) do ser humano e
da humanidade, bem como de termos chegado a um modelo
permanente de organização político-social (e, portanto, bom
e cientificamente consistente), que apesar de tudo isto a
humanidade se encontre no estado terrível em que se
encontra, onde destacam-se, de um lado, os problemas do
chamado subdesenvolvimento e, de outro, as ameaças
crescentes de desequilíbrios ambientais catastróficos. Mas
talvez a sua faceta mais triste seja o fato de que a
humanidade de nossos dias se encontra sem qualquer
perspectiva concreta de superação deste quadro num horizonte
previsível. Na realidade, o que temos bem claramente
previsível à nossa frente é um agravamento crescente de
problemas e desafios colossais.
Tendo em mente este panorama global, ainda que muito
sintético, a respeito das premissas e do modelo de
organização política do Liberalismo, passemos agora a
analisar as falhas deste modelo. Iniciaremos esta análise,
contudo, procurando situar e enfatizar a importância
decisiva dos modelos de organização política em relação ao
bem-estar dos países em geral.
5 – AS FALHAS DA
DEMOCRACIA LIBERAL
A fim de podermos perceber claramente como os problemas
mundiais estão relacionados com as falsas concepções de ser
humano que fundamentam tanto o Liberalismo quanto o Marxismo
(por não apreenderem satisfatoriamente os aspectos da
unidade e da diversidade inerentes à humanidade), faz-se
necessário criticarmos seus modelos de organização política.
Isto é necessário porque, como dissemos, estas falsas
concepções se relacionam com os problemas concretos da
humanidade por meio das principais instituições que
organizam a vida social. Estas instituições se constituem em
aplicações práticas, ou modelos que estruturam concretamente
as nossas vidas diárias, que são, estes sim, diretamente
derivados destes pressupostos abstratos, ou destas premissas
filosóficas a respeito do ser humano.
Se quiséssemos ser um pouco mais precisos deveríamos dizer
que esta intermediação ocorre em primeiro lugar através da
influência sobre o comportamento da elite, na medida em que
este comportamento é afetado por uma determinada visão de
mundo e, conseqüentemente, por um determinado conjunto de
valores éticos. E é este comportamento da elite que, por ser
ela tão dominante (conforme vimos no capítulo sobre as
diferenças de capacidade), se projeta inevitavelmente sobre
o todo da sociedade, sob a forma de suas principais
instituições (a exemplo do sistema de organização política).
A Importância da Forma de
Organização do Poder
Entre todas as principais instituições de uma sociedade,
concretizadas através das idéias e dos padrões de
comportamento que são dominantes ao nível da elite, a mais
nevrálgica ou vital, aquela da qual necessariamente dependem
as outras grandes instituições de uma sociedade, é o modelo
ou a forma como o poder é organizado e distribuído dentro
deste corpo social.
É claro que todas as grandes instituições de uma sociedade
(econômicas, educacionais etc.) interagem e influenciam-se
mutuamente e, portanto, a importância de nenhuma delas deve
ser negligenciada. No entanto, todas as leis fundamentais,
que em grande medida balizam a existência destas outras
instituições, bem como os processos de tomada de decisões
que envolvem imensas quantidades de recursos, dependem
vitalmente da forma como o poder é organizado.
Isto porque é a estrutura política que regulamenta a maneira
como serão escolhidos os principais legisladores e
governantes. E são eles que decidirão a respeito das
principais leis constitutivas, bem como são eles que
decidirão a respeito da aplicação prática de gigantescos
volumes de recursos.
Efeitos da Não Compreensão da
Unidade e das Diferenças
A forma como se estrutura ou se organiza o poder é,
portanto, crucial para o bem-estar de qualquer sociedade. A
compreensão deste ponto não parece ser muito difícil e,
talvez, seja uma coisa razoavelmente bem conhecida. No
entanto, mesmo ao nível da elite as pessoas encontram
enormes dificuldades para perceber que as grandes
instituições que organizam e distribuem o poder, isto é, os
sistemas políticos, tanto do Liberalismo quanto do Marxismo,
são muito inconsistentes, ou muito incompetentes no
cumprimento de sua função básica de organizar o poder numa
sociedade. E, assim sendo, a maioria da elite falha em
perceber que é precisamente a incompetência destas
instituições que é diretamente responsável por grande parte
dos graves problemas enfrentados por estas sociedades.
Esta dificuldade generalizada de perceber claramente o
fracasso destes modelos tem como explicação o fato de que
somente é possível esta percepção quando se leva em conta
tanto a unidade quanto as enormes diferenças de capacidades
mentais e morais (ou de caráter) – os dois aspectos
absolutamente fundamentais em qualquer visão realista dos
seres humanos coletivamente considerados – e que são
justamente os pontos onde, como vimos, falham tanto o
Liberalismo quanto o Marxismo.
Por esta razão é tão importante a perspectiva da humanidade
como uma fraternidade, uma vez que é a única que engloba e
harmoniza estes dois aspectos fundamentais e aparentemente
contraditórios da unidade e da diversidade. Também por esta
razão nos preocupamos tanto em apresentar um claro panorama
acerca da unidade e das diferenças entre os seres humanos.
As Duas Funções do Sistema
Político
Quando levamos em conta esses aspectos, fica muito claro que
o sistema de organização política em qualquer sociedade deve
responder, sobretudo, a duas grandes necessidades relativas
à organização do poder. A primeira delas é oferecer um
processo de escolha dos principais legisladores e
governantes, por meio do qual possam chegar a estes cargos
de maior responsabilidade dentro de uma sociedade os
indivíduos realmente mais capacitados, tanto em termos
ético-morais, quanto em termos técnicos. E a segunda
necessidade é garantir que estes dirigentes sejam dotados
dos meios de coerção adequados, isto é, de uma quantidade
suficiente de poder ou força, de modo que eles sejam capazes
de impor o respeito à norma legal, a qual é resultado das
decisões emanadas destes legisladores e governantes.
É indispensável que haja uma compreensão bem clara a
respeito da importância decisiva destas duas funções
principais de um sistema político. Isto é decisivo tanto
para que se possa elaborar um bom diagnóstico das falhas dos
sistemas atuais e, assim sendo, para que se entenda como são
gerados os problemas mundiais, quanto para que se vislumbre
a possibilidade da construção de uma ordem social
satisfatoriamente harmônica. Por esta razão examinaremos a
seguir cada uma destas funções.
O Processo de Escolha dos
Governantes
A primeira necessidade, portanto, é a de um eficaz processo
de escolha dos governantes. Se levarmos em conta as enormes
diferenças de capacidade e, assim sendo, de níveis de
abrangência da consciência social dos seres humanos
(expostas anteriormente) perceberemos imediatamente que este
aspecto é absolutamente essencial e não pode deixar de ser
equacionado com muita competência, sob pena de acarretar
conseqüências simplesmente desastrosas.
Um competente processo de escolha das lideranças é
imprescindível porque as questões atinentes a uma nação
inteira, e ao seu relacionamento com outras, são muito
vastas e complexas, tanto assim que apenas muito poucas
pessoas, apenas aquelas mais capacitadas e mais altruístas é
que estarão aptas para enfrentá-las apropriadamente. Ou
seja, os requerimentos inerentes ao exercício competente dos
cargos de maior responsabilidade em uma nação são muito
grandes e, deste modo, exigem que o processo de escolha
assegure que chegarão até estes cargos os indivíduos
realmente capacitados, que serão certamente muito poucos.
Tudo isto evidencia o fato de que este sistema de escolha
dos dirigentes deve ser excepcionalmente bem estruturado,
sob pena de facilmente comprometer o bem-estar de toda a
sociedade que em torno dele vive.
Se examinarmos o exemplo muito mais simples de uma empresa,
perceberemos com muita facilidade que o fato de não se
colocar os mais capacitados nos postos de chefia implica num
desperdício enorme de recursos. Que dizer então para o caso
das nações, que são realidades muito mais complexas e,
geralmente, muito mais vastas? Neste caso, não escolher
aquelas poucas pessoas qualificadas para estas funções e
responsabilidades, significa a certeza não apenas de imensos
desperdícios, mas de catástrofes físicas e morais, que é bem
o quadro que podemos observar no panorama mundial atual.
A Necessidade de Um Grande Poder de Coerção
Quanto à segunda necessidade apontada – isto é, a da
presença não apenas de pessoas capacitadas, mas também de
suficiente poder de coerção em suas mãos, a fim de que suas
decisões possam ser realmente postas em prática – isto
também é algo de fundamental importância por causa,
sobretudo, de uma das características básicas do mundo
atual, que é a existência de gigantescas organizações,
públicas e privadas, que detêm um poder incrivelmente grande
em suas mãos, e que o usam para a realização dos seus
interesses e objetivos privatistas (de corporações ou de
grupos privados).
Como não é muito difícil de se constatar, mesmo as
organizações públicas desenvolvem um “espírito de corpo”,
isto é, interesses corporativos, e usam o seu poder enorme
em prol destes interesses. Dentro deste cenário, se os
dirigentes do Estado não estiverem dotados de um enorme
poder de coerção, não haverá a menor chance de que estes
interesses gigantescos possam ser regulados e harmonizados
em prol dos interesses maiores do bem-estar coletivo.
O modelo de organização política do Liberalismo, a chamada
democracia liberal, oferece respostas muito pouco
satisfatórias a qualquer uma destas duas necessidades
examinadas. De um lado, oferece um processo de seleção aos
postos de maior responsabilidade que nem de longe seleciona
aqueles poucos realmente capacitados para o exercício destas
elevadas e pesadas responsabilidades. E, de outro, gera uma
estrutura estatal débil, totalmente à mercê dos grandes
interesses corporativos, isto é, das gigantescas
organizações públicas e privadas, cuja existência, como
vimos, é uma das características mais salientes das
sociedades atuais.
A Liberdade
Tentemos entender porque isto é assim. Imaginemos
inicialmente um processo de seleção qualquer, um concurso
público, por exemplo. Se quiséssemos que ele fosse um
processo de seleção sério, justo e competente, isto é, que
realmente tivesse uma boa chance de escolher os melhores de
uma dada população, quais seriam as condições necessárias?
Em primeiro lugar deveria existir liberdade para qualquer
pessoa participar, a fim de que ninguém fosse de antemão
excluído do concurso. Se uma parte da população fosse
excluída a priori, digamos aqueles que tem a pele vermelha,
nada nos garantiria que entre aquela parcela, pequena ou
grande, da população que possui a pele vermelha, não
houvesse alguém muito qualificado. Assim sendo, a liberdade
é um ingrediente indispensável de um processo justo e
competente de seleção.
A Igualdade de Oportunidades
Em segundo lugar, não deveria haver privilégios no processo
de escolha, isto é, deveria haver igualdade de oportunidades
na disputa, pois se alguém, por exemplo, tivesse o
privilégio de saber antecipadamente as questões da prova,
esta pessoa certamente obteria o primeiro lugar, mas isto
não teria valor algum, não provaria coisa alguma. Isto
viciaria irreparavelmente o processo de seleção, o tornaria
injusto e incompetente em relação ao seu verdadeiro
propósito que é selecionar os realmente capacitados.
A Adequação Entre Funções e
Capacidades
Finalmente, deveria haver uma grande adequação entre o grau
de dificuldade da prova, a função para a qual ela está
selecionando, e a qualificação ou o nível de compreensão da
população em questão. Se, por exemplo, a prova estivesse
selecionando auxiliares de escritório, de nada adiantaria
uma prova que contivesse apenas questões de cálculo
integral. De um lado, este conteúdo não está adequado ao
grau de dificuldade, ao tipo e à responsabilidade da função
e, de outro, a população alvo pouco entenderia das questões,
tornando o processo de seleção muito pouco significativo.
Isto quer dizer que deve haver uma adequação entre o nível
de dificuldade e responsabilidade da função e o nível de
compreensão da população.
Estas condições são praticamente universais em relação a
qualquer processo de seleção de recursos humanos, e o caso
de um sistema político que busque ser justo e competente não
se constitui em nenhuma exceção a estas regras. Examinemos,
então, cada uma destas condições em relação ao processo de
seleção das democracias liberais.
O Equívoco das Eleições de
Grandes Massas
A liberdade de participação e expressão é um valor
universal, inerente à dignidade humana, e qualquer
cerceamento a priori da possibilidade de alguém, ou de algum
grupo, participar do processo político viciará o processo de
escolha por parte da população, e assim por diante. Falando
apenas em termos gerais, a garantia desta liberdade de
participação, de expressão, de organização etc., costuma ser
razoavelmente bem atendida nas democracias liberais. Esta
condição, portanto, não é um grande problema neste tipo de
modelo de organização política.
Mas que dizer da segunda condição, que é da igualdade de
condições na disputa pelos postos de maior responsabilidade
política do país? Haveria igualdade de condições nas
eleições de grandes massas que caracterizam os processos de
escolha para os principais postos políticos nas democracias
liberais? Evidentemente que não, nem de longe!
Os processos eleitorais de grandes massas, que geralmente
chegam à casa dos milhões de pessoas, não raro muitos
milhões de pessoas, caracterizam-se por campanhas
caríssimas, as quais envolvem vultuosos recursos (humanos,
materiais, financeiros etc.) e envolvem necessariamente
acesso aos meios de comunicação de massa. Ora, a maioria da
população possui poucos recursos, e os meios de comunicação
de massa são detidos por grupos privados! O que acontece na
realidade deste cenário injusto é que a grande maioria fica
completamente excluída de qualquer chance concreta de
sucesso em uma disputa tão flagrantemente desigual.
E o resultado disto é bem evidente. A esmagadora maioria dos
que se elegem pertencem a algumas categorias bem visíveis.
Elegem-se, sobretudo, os ricos, ou aqueles financiados pelos
que detêm grandes recursos materiais; elegem-se também
aqueles que aparecem com freqüência nos meios de comunicação
de massa, sejam artistas, atletas ou comunicadores de massa
de vários tipos. Cabe repetir que sendo os meios de
comunicação empresas privadas, os interesses privados dessas
empresas exercem uma “natural” censura, não apenas sobre
aquilo que veiculam, mas muito especialmente sobre aqueles
que empregam como seus comunicadores de todos os tipos.
Alguém já viu um comunicador do SBT criticando os interesses
econômicos, ou políticos, ou de qualquer outro tipo do Sr.
Sílvio Santos? Ou coisa análoga em relação à Globo e o Sr.
Roberto Marinho? Bem ao contrário, o que se sabe são de
comunicadores, artistas etc., que perdem seus empregos por
discordarem das idéias de seus patrões. Do que se sabe bem,
igualmente, é do poder imenso dos meios de comunicação de
massa, sejam as redes de televisão, ou de rádio, ou mesmo
dos grandes jornais e revistas, que em conjunto são
freqüentemente denominados de “quarto poder”.
A última categoria que tem bastante “sorte” neste sistema
são os demagogos de todos os tipos. São aqueles que,
consciente ou inconscientemente iludem a massa com promessas
que não poderão cumprir. É claro que alguns conseguem
combinar duas destas categorias, ou mesmo as três, e aí
então temos os fenômenos eleitorais.
Muitas pessoas não percebem claramente que este quadro tão
injusto fica ainda muito agravado quando consideramos a
terceira das condições de um bom processo de escolha, que
diz respeito à necessária adequação entre o nível da função
ou responsabilidade, e o nível de consciência da população.
As informações do capítulo sobre as diferenças de
capacidades nos mostraram o real perfil dos níveis de
abrangência da consciência social da população.
O grau de inocência de grande parte desta população foi ali
mostrado de forma clara. Sem uma visão nítida deste perfil e
das enormes diferenças de abrangência na consciência social
da população não é possível um diagnóstico sério acerca do
quão injustas e incompetentes são as regras para a seleção
dos governantes nos processos eleitorais das democracias
liberais.
Tomemos um exemplo concreto. Qual o sentido da população
inteira ser obrigada a escolher os constituintes, através do
sufrágio direto universal e obrigatório, quando de acordo
com uma pesquisa do IBOPE, antes mencionada, poucos meses
antes das eleições, no Rio Grande do Sul, que é um dos
estados com melhores índices educacionais do país, 70,5 % da
população não sabia sequer o que era uma Constituinte?
Seria de causar qualquer surpresa que num processo de
escolha dos dirigentes deste tipo a população eleja um
presidente corrupto? Que ela eleja como deputado federal, um
dos postos de maior responsabilidade, um traficante de
drogas, e assim por diante? E não se diga que isto é apenas
no Terceiro Mundo. Basta ver o exemplo recente da Itália,
com tantos escândalos de corrupção etc. E o do Japão, onde
mais de um primeiro ministro foi deposto porque descobriram
que haviam sido subornados por grandes empresas, como a
Lockheed dos EUA. Ou o caso de Nixon nos EUA. Os exemplos
são tantos e tantos que se tornam enfadonhos. E isto que são
apenas os conhecidos.
O quadro abaixo, a respeito da credibilidade dos políticos,
é bem nítido acerca dos resultados deste processo de escolha
dos dirigentes políticos numa democracia liberal. Estes
dados são sobre a credibilidade merecida por aqueles que
deveriam ser o que uma nação tem de melhor, pois ocupam os
postos de maior responsabilidade. A pesquisa é do IBOPE e
foi publicada em Zero Hora, em 09/08/87. A pergunta
apresentada foi a seguinte: “Você concorda ou discorda das
afirmações abaixo usadas para descrever a atuação dos
políticos?” A tabulação apresenta percentuais.
|
Afirmações
|
Concorda |
Discorda |
Não sabe/
não opinou |
|
Só fazem política em interesse próprio
|
80 % |
17 % |
3 % |
|
Se preocupam com os interesses do povo
|
30 |
67 |
3 |
|
Mesmo os mais honestos acabam se
corrompendo |
66 |
26 |
8 |
|
Não cumprem o que prometem na campanha
|
89 |
9 |
2 |
|
Só defendem aqueles que os ajudaram a se
eleger |
73 |
23 |
4 |
|
Desfrutam de muitas mordomias
|
92 |
6 |
2 |
|
Só se lembram do eleitor na hora da
eleição |
93 |
6 |
1 |
Este quadro é um claro atestado acerca da incompetência
deste sistema de escolha dos dirigentes políticos. Talvez
apenas o agravamento nos últimos dez anos do quadro de
excludência social, de miséria e violência na sociedade
brasileira (que já era intolerável) seja um atestado ainda
mais inequívoco acerca da incompetência geral deste modelo
de organização política.
O Poder das Grandes
Organizações
No entanto, não apenas quanto ao processo de escolha dos
governantes este modelo resulta incompetente. Também este
modelo resulta incompetente no que diz respeito à sua
capacidade de prover os governantes da necessária força de
coerção, sobretudo, como vimos, para fazer frente ao enorme
poder das grandes organizações.
Por que estas grandes organizações são tão poderosas? Em
última análise, porque conseguem reunir de forma coesa os
esforços de muitos milhares de pessoas, por vezes centenas
de milhares de pessoas. Graças a esta reunião coesa de
esforços, ainda que por motivações de cunho eminentemente
privatista, estas organizações apropriam-se de imensas
quantidades de recursos econômicos, financiam e subornam
dirigentes políticos, e assim por diante. E estas façanhas
organizacionais são possíveis porque os seus departamentos
de pessoal, entre outros, aplicam com muita eficácia o
conhecimento acerca das diferenças de capacidades!
Alguém conseguiria imaginar uma grande empresa, com dezenas
de milhares de funcionários, escolhendo seus principais
executivos, seu conselho de administração, enfim, seus
postos de maior responsabilidade, por meio de um processo de
eleições diretas com um voto para cada funcionário?
Absolutamente não! Ou um exército escolhendo seus generais
por eleições diretas de todos os componentes da força? De
forma alguma! A própria Igreja Católica Romana, que do ponto
de vista meramente organizacional é um dos exemplos mais bem
sucedidos da história, e cujos bispos e cardeais, FORA DE
CASA, apóiam a democracia liberal, não aplica, é claro, em
sua própria casa um sistema tão ineficiente. Os seus fiéis
não elegem o Papa, nem sequer os padres, e nem mesmo todos
os bispos. Apenas os cardeais procedem à escolha do chefe da
Igreja.
Ora, os problemas de uma grande nação são muito mais
complexos do que os problemas administrativos de uma grande
empresa, de uma força armada, ou de uma organização
religiosa. Mas os mesmos líderes empresariais, militares,
religiosos etc., que para fora de suas organizações pregam
as maravilhas do modelo democrático liberal, jamais
pensariam em aplicá-lo nas realidades muito mais simples de
suas corporações! Esta é a miséria das elites. Isto é, a
miséria das idéias que dominam ao nível das elites e que se
projetam como as grandes instituições dos países e do mundo.
A fraqueza do Estado organizado sob a forma de uma
democracia liberal foi atestada, várias vezes, na história
recente do Brasil, e de tantas outras nações do Terceiro
Mundo, ou mesmo da América Latina. Por que foram possíveis
tantos golpes de estado, e por que serão possíveis tantos
outros no futuro? Porque trata-se de um modelo de estado
débil, impotente ante a força das grandes organizações, das
quais ele geralmente não passa mesmo de um fantoche. E o
mesmo fator que explica a força destas corporações explica a
fraqueza deste modelo.
Vimos que a força destas corporações reside no fato de
conseguirem reunir, ou organizar, de forma coesa muitos
milhares de pessoas. E perante a colossal força destas
corporações unicamente a força gerada por uma boa
organização de toda a população de um país poderia impor-se.
E é exatamente isto que o modelo democrático-liberal não
faz, pois nos sistemas de eleições de grandes massas a
organização política é muito frouxa e a população permanece
fragmentada, ou “atomizada”, devido à grande distância que
separa os representantes dos representados. E é a boa
organização, a coesão, ou a união como se diz popularmente,
aquilo que gera a força – não a fragmentação, a frouxidão
quase amorfa.
Quando milhões de pessoas elegem diretamente um governante,
seja legislativo ou executivo, este mesmo processo, além de
muito incompetente como processo de escolha dos mais
capacitados, gera um abismo entre a população e os seus
dirigentes, do qual advém a fraqueza deste tipo de estado,
em relação às gigantescas corporações, privadas ou públicas.
Porque mesmo estas últimas desenvolvem um espírito de corpo
e interesses privatistas, os quais, em um estado tão fraco,
não há força capaz de controlar.
Desnecessário seria dizer que esta fraqueza apenas é
reforçada pela ordem de contrapesos dos três poderes, cuja
separação, de fato, enfraquece ainda mais o poder central.
Este enfraquecimento, como vimos, é na realidade o objetivo
visado, o qual é derivado da concepção de um “estado
mínimo”. Nestes pontos, em resumo, residem as falhas do
modelo liberal.
Conforme citamos de Philip Converse anteriormente, são as
correntes de pensamento que constroem a vida das nações. E
do mesmo modo são elas que constroem a vida dos indivíduos –
poderíamos acrescentar. Aquilo que domina as mentes da
elite, aquilo que os líderes e os intelectuais proferem,
aquilo que o poeta canta etc., nisto se converterá a vida de
uma nação, uma vez que estes pensamentos também serão
inevitavelmente aplicados como as principais instituições
ou, no caso, como os modelos de organização sócio-política.
6 - AS PREMISSAS E AS
FALHAS DO MODELO MARXISTA
Qual a visão de homem que nucleia a filosofia social do
Marxismo? A consciência humana é vista nesta filosofia como
resultado do entrechoque dialético de forças materiais,
sobretudo relacionadas às formas de produção e distribuição
dos bens econômicos.
Em seu materialismo dialético e historicista, Marx pretende
ter descoberto a lei de conflito dialético (tese, antítese e
síntese) ligada às disputas pelas riquezas econômicas, a
qual explicaria todo o desenvolvimento material e
psico-espiritual (intelectual, jurídico,
filosófico-religioso etc.) da humanidade.
A Lei do Conflito Fundamental
Esta lei pode ser resumida como o conflito existente em
todas as sociedades históricas (exceto num suposto comunismo
primitivo) entre exploradores (tese) e explorados
(antítese), ricos e pobres, dominadores e dominados. Este
conflito sempre tem como resultante uma nova síntese, a qual
determina um novo padrão de exploração, que passa a se
constituir em uma nova tese, gerando uma nova antítese e
assim por diante. Em nosso momento histórico do capitalismo
esse conflito dá-se centralmente entre a classe detentora
dos bens e equipamentos de produção econômica (os
capitalistas, ou a burguesia) e a classe trabalhadora que
possui apenas a sua força de trabalho.
Este conflito fundamental é que, em resumo, geraria e
explicaria a enorme diferenciação existente ao nível das
consciências. Os explorados devido à pobreza, à ignorância e
ainda à cultura dominante, que surge para justificar esta
exploração (cultura esta chamada por Marx de “ideologia”),
tornam-se alienados ou inconscientes de seus direitos e
possibilidades de desenvolvimento. Os exploradores, devido à
riqueza e à educação que lhes confere um maior descortino e
abrangência mental, reproduzem as formações culturais que
justificam a exploração, isto é, as visões de mundo
ideológicas ou de dominação.
A Consciência Determinada
Pelo Meio Material
Mas, ao contrário do Liberalismo que vê o homem com uma
desconfiança fundamental, o Marxismo é uma filosofia que vê
o homem através de um certo tipo de otimismo fundamental.
Isto porque o Marxismo defende a premissa de que esta
diferenciação entre exploração e alienação, que caracteriza
a consciência da humanidade até os nossos dias, trata-se
apenas de um período na evolução da espécie humana (definido
como “pré-história” da humanidade), uma fase que estaria
próxima do seu final.
Deste modo, devido ao avanço e à complexificação cada vez
maior (industrialização, urbanização, revoluções científicas
e técnicas etc.), desencadeados pelo modo de produção
econômica característico do capitalismo, a exploração
estaria chegando a um máximo e se tornando cada vez mais
aparente. Marx afirma, fiel aos seus pressupostos, que os
seus próprios estudos (os quais identificaram esta lei
mestra do conflito dialético-material-econômico, que
explicaria a alienação etc.) já foram frutos do
desenvolvimento material do modo de produção característico
dessa época.
Assim sendo, o Marxismo acredita que está chegando o momento
evolutivo no qual os explorados, que são a maioria, estão se
conscientizando desta exploração, e que através de suas
organizações (elas mesmas resultado dessa nova consciência
social), imporão uma nova ordem, não mais baseada na
propriedade privada dos bens de produção e, portanto, na
exploração, mas sim na socialização destes bens de produção.
Este período de transição implicaria, segundo Marx, no uso
da força, e num regime temporariamente ditatorial (a
ditadura da classe operária). Outros autores, reformadores
do pensamento marxista original, acreditam que esta
transição pode, ou até mesmo deve, se dar dentro dos
processos eleitorais típicos das democracias liberais. Mas
isto não muda a essência desta filosofia, e por isso se
definem ainda como marxistas, ou neomarxistas.
Mas o mais importante é que, feitas estas transformações e
superada a exploração, as enormes diferenças de abrangência
das consciências humanas desapareceriam quase que
completamente. Todos os homens saudáveis se tornariam
plenamente conscientes em termos sociais. Adviria daí uma
era (a verdadeira “história” do homem, posto que ele agora
pela primeira vez estaria consciente e senhor das leis que
determinam a sua história) na qual reinaria uma grande
igualdade econômica, bem como uma igualdade de abrangência
na consciência social dos indivíduos. Os bens econômicos
necessários seriam acessíveis de forma livre e comum a
todos, daí o termo “comunismo”. Restariam apenas as
diferenças de tipos psicológicos, temperamentos etc., mas
não mais grandes diferenças de níveis de consciência social,
uma vez que o fenômeno da alienação teria deixado de
existir.
O Ser Humano no Marxismo
O homem no Marxismo, ao contrário do Liberalismo, não é
visto como um ser basicamente egoísta. Ele é um ser que está
em vias de superar para sempre a exploração (o egoísmo
cruel), bem como a sua contrapartida que é a alienação. O
homem é assim potencialmente bom, desde que as
circunstâncias ou o meio ambiente social sejam bons, uma vez
que a sua consciência é função do ambiente que a envolve.
Por isto classificamos o Marxismo como uma perspectiva de
certo modo otimista. Mas, em comum com o Liberalismo, esta
filosofia também procede a um nivelamento da espécie humana.
Não no que diz respeito à situação atual (onde a existência
de diferenças seria resultado da exploração), mas sim em
termos potenciais. Potencialmente todos são igualmente
capazes, apenas o meio histórico-material (caracterizado
pela exploração) é que ainda não permite que essa igualdade
se expresse.
Forçando um pouco a comparação, apenas para auxiliar a
compreensão, podemos dizer que o Liberalismo nivela a
humanidade por baixo (“todo homem é lobo do homem”), e o ser
humano, portanto, é visto sempre como basicamente dentro de
um padrão egoístico. Enquanto que o Marxismo nivela a
humanidade por cima, ao menos em termos potenciais, na
medida em que acredita que tão logo se transforme o meio
histórico-material todos os seres humanos verão suas
consciências superarem a alienação, dentro de uma ampla e
desimpedida consciência de cidadania.
A Ética Marxista
Não é necessário avançarmos mais neste exame dos fundamentos
do Marxismo. Do mesmo modo que o Liberalismo, também o
Marxismo é uma construção lógica, e dificilmente poderia não
ser assim numa época de predomínio da logicidade
cientificista. E assim, seus métodos de ação, suas
concepções éticas e de deveres, bem como seu modelo de
organização social, derivam-se logicamente de suas premissas
fundamentais.
Da mesma forma que no caso do Liberalismo, o Marxismo também
deu origem a uma ética, a valores morais coerentes com sua
filosofia materialista e igualitarista, bem como a uma
estratégia de transformação social. Na verdade, ao menos no
que diz respeito a alguns aspectos, trata-se de uma ética
tanto ou mais cruel que a ética utilitarista e a excludência
social que caracterizam o Liberalismo. Isto porque, sendo a
consciência considerada como fruto do meio ambiente
material, todas as maneiras de se alcançar um ambiente
material livre da exploração de uma classe sobre a outra
tendem a ser justificadas.
E a partir daí legitima-se a aplicação dos métodos mais
violentos de transformação social. Os horrores gerados pelo
regime soviético, e por outros países que adotaram um modelo
marxista, são hoje conhecidos e dispensam maiores
comentários, mas podem ser grosseiramente resumidos como uma
ética do tipo “os fins justificam os meios”. Examinemos
agora, ainda que brevemente, o modelo de organização
política diretamente derivado desta filosofia, que é aquele
relativo à chamada ditadura do proletariado.
As Falhas a as Virtudes do
Modelo Marxista
O modelo tipicamente derivado do Marxismo é uma ordem
totalitária muito pouco flexível que exclui da disputa
política partidos e candidatos que não apóiem este modelo.
Geralmente temos um quadro de partido único, ou pelo menos
de um partido ampla e inflexivelmente dominante, como
podemos observar ainda hoje, por exemplo, na China ou em
Cuba.
Ali o sistema de representação, ou de escolha das chefias
políticas, o qual como dissemos se dá geralmente dentro do
partido único, não segue a norma das eleições de grandes
massas como nas democracias liberais, porém ocorre através
de um sistema do tipo piramidal, também conhecido como
“árvore invertida”.
Neste sistema a representação ocorre escalonadamente em
alguns níveis de amplitude crescente. Assim, a representação
começa em pequena escala, com a eleição de representantes em
uma “célula”, que é o primeiro nível de organização, o qual
corresponde a um local de trabalho (uma fábrica, por
exemplo), ou uma pequena circunscrição geográfica. A
representação segue a partir daí, indiretamente, através de
outros níveis de abrangência geográfica cada vez maior
(seções, federações, ou denominações análogas), até chegar a
um conselho superior da república, isto é, um Congresso
Nacional, o qual por sua vez escolhe um Comitê Central, o
qual designa um Secretariado e outras comissões que se
fizerem necessárias às funções governamentais de maior
responsabilidade política do Estado.
Analogamente à análise aplicada ao modelo liberal, vejamos
como o modelo marxista responde às necessidades essenciais
de um processo de escolha dos dirigentes justo e competente
que são: 1) liberdade, 2) igualdade de condições na disputa
política e, 3) adequação entre níveis de responsabilidade e
níveis de compreensão ou capacidades. Em segundo lugar,
vejamos se gera a força de coerção política necessária para
uma atuação eficaz dos governantes.
Não é difícil perceber que a questão da liberdade, que é o
ponto forte do modelo liberal, é o ponto mais crítico do
modelo marxista, o qual em termos gerais também compromete
totalmente o aspecto da igualdade de oportunidades.
Neste modelo aqueles que divergem substancialmente das
idéias dominantes não podem sequer participar do processo
político. Ficam automaticamente excluídos deste processo.
Neste cenário, é claro, desaparece a igualdade de
oportunidades, pelo menos em relação àqueles que se opõem às
idéias e ao sistema dominante.
No que diz respeito ao aspecto da adequação entre nível de
responsabilidade da função e nível de compreensão dos
indivíduos, por paradoxal que isto soe à primeira vista (uma
vez que se trata de um modelo derivado de uma filosofia que
apregoa a igualdade de capacidades de todos os seres
humanos, pelo menos em termos potenciais), este modelo se
mostra claramente superior ao modelo liberal.
Isto porque o seu modelo de escolha dos dirigentes que, como
vimos, é do tipo piramidal (ou “árvore invertida”), garante,
de um lado, uma maior igualdade de oportunidades, uma vez
que as eleições se dão sempre em grupos muito menores do que
no caso do sufrágio de massa, embora esta maior igualdade de
oportunidades seja relativa, pois se dá apenas dentro do
partido. De outro lado, este sistema permite uma grande
adaptação entre função e capacidades, uma vez que as
eleições para os sucessivos níveis de representação vão
gradualmente aumentando tanto os níveis de responsabilidade
quanto a qualificação da população envolvida, porém, o que é
mais importante, sem nunca implicar em eleições de massa.
E justamente por não se valer do sufrágio de massa, este
modelo, finalmente, organiza muito melhor a população
envolvida no processo político, graças exatamente a esta
estrutura de representações escalonadas, onde dentro de cada
um destes níveis existe uma proximidade muito maior entre os
representantes e os representados. Deste modo, ele tende a
gerar uma coesão social muito maior do que os sistemas de
eleições diretas de massa, os quais, como vimos, devido à
grande distância entre representantes e representados,
enfraquecem muito a coesão da organização social.
Não obstante, uma vez que se trata de um sistema rígido e
que não permite a liberdade de participação etc., ele acaba
excluindo uma expressiva parcela da população e, deste modo,
acaba gerando resistências e conflitos muito prejudiciais,
além de uma inflexibilidade tão grande que acaba por minar a
criatividade e, portanto, a vitalidade ou a dinamicidade de
todo o sistema.
Seja lá como for, o fato é que este sistema, embora pagando
um preço totalmente inaceitável quanto à liberdade e à
igualdade de oportunidades, o que no longo prazo decreta o
seu fracasso, consegue gerar uma maior adaptação entre
funções e capacidades em comparação com o modelo liberal e,
ao menos por algum tempo, devido à inexistência do sufrágio
de massa, gera uma coesão social que garante aos dirigentes
um grande poder de coerção, o que historicamente lhes
permitiu implementar profundas transformações
sócio-econômicas dentro dos países onde este modelo foi
aplicado, transformações estas que seriam impossíveis dentro
da ambiência de um modelo liberal. A China é exemplo disso.
Concluiremos nosso breve exame das limitações e dos pontos
favoráveis do modelo marxista trazendo em corroboração à
nossa análise duas passagens de Maurice Duverger,
seguramente um dos maiores cientistas políticos deste século
XX. Ao final da segunda citação Duverger deixa claro que
também tem fortes reservas a este modelo como um todo, mas
não deixa de reconhecer que possui méritos organizacionais,
pois afirma que os marxistas:
“(...)
desenvolveram uma estrutura ainda mais original, repousando
em grupos bem pequenos (de empresa, bairro, etc.),
fortemente reunidos pelos processos do “centralismo
democrático”, e contudo fechados graças à técnica de
ligações verticais: esse admirável sistema de enquadramento
das massas tem contribuído ainda mais para o êxito do
comunismo que a doutrina marxista ou o pobre nível de vida
das classes operárias.” (“Os Partidos Políticos”, p. 40)
“Podemos pensar muitas coisas do Partido Comunista: porém
devemos reconhecer que os mecanismos forjados por ele são de
notável eficácia, e que não lhes podemos recusar certo
caráter democrático, por causa deste cuidado constante de
manter o contato da base, de estar “à escuta das massas”.
(...) A força do Partido Comunista é a de haver estruturado
um método científico que permite alcançar esses resultados,
com a dupla vantagem do método científico: maior exatidão; e
possibilidade de emprego por todos após uma formação
satisfatória. Ainda mais profundamente, o valor desse método
vem do fato de que esta força não é puramente passiva, não
se limita a registrar as reações das massas, mas permite
agir sobre elas, canalizá-las suavemente, prudentemente,
porém profundamente. Pode-se deplorar o emprego da
ferramenta: deve-se admirar sua perfeição técnica.” (“Os
Partidos Políticos”, p. 93)
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