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7 – OS PROBLEMAS MUNDIAIS
E OS MODELOS
POLÍTICOS DOMINANTES
Após termos examinado as correntes de pensamento dominantes nesta
segunda metade do século XX, bem como as limitações das suas
principais instituições, especialmente seus modelos de
organização política, devemos agora examinar a ligação
direta destes sistemas políticos com os problemas mundiais,
ainda que isto já possa ter sido vislumbrado ao longo das
análises apresentadas anteriormente.
Iniciemos, então, explicitando quais os principais problemas mundiais em
nossa época, os quais por certo devem estar relacionados, ou
mesmo em grande medida devem ter sido gerados por estas
correntes e seus modelos, uma vez que elas dominaram o
panorama das idéias neste século.
Dizemos “em grande medida” porque a bem da justiça não podemos ignorar
que as outras alternativas que se apresentaram ao mundo,
especialmente na primeira metade do século, isto é, o
Nazismo e o Fascismo, constituem correntes e modelos ainda
mais tragicamente equivocados do que os dois examinados e
que hoje são hegemônicos. Do mesmo modo, os exemplos
alternativos nos dias de hoje, embora de menor significância
no contexto mundial, são ainda piores do que os examinados.
Nos referimos sobretudo aos fundamentalismos religiosos, a
exemplo do caso do Irã. Todos estes também contribuíram ou
ainda contribuem para a miséria deste século e, portanto,
não podemos atribuir todos os males do século ao Liberalismo
e ao Marxismo. Na verdade, é certo que devamos sentir certa
gratidão a estas duas correntes, pois foram elas que nos
salvaram de uma tragédia muito maior, que seria um domínio
mundial nazi-fascista.
Os Principais Problemas Mundiais
Feita esta ressalva, passemos à análise dos principais problemas
mundiais que dizem respeito, de um lado, ao abismo de
riqueza existente entre as nações, isto é, ao contraste
entre os assim chamados países desenvolvidos e
subdesenvolvidos, e de outro, às agressões e desequilíbrios
do meio ambiente natural, com os desastres ecológicos que
podem daí resultar.
O subdesenvolvimento tem por trás de si a miséria, a violência e o
abandono de milhões e milhões de seres humanos. Este é um
quadro completamente inaceitável, o qual cedo ou tarde
gerará uma indignação e uma revolta incontrolável, trazendo
consigo o risco inclusive de guerras nucleares. E as
crescentes formas de poluição e de destruição impostas ao
meio ambiente natural apontam para desastres que já são
cientificamente previsíveis em um horizonte não muito
distante. Por que as diferenças entre a riqueza das nações
aumentou tanto ao longo dos dois últimos séculos? O que é
que está por detrás das crescentes agressões ao ambiente
natural?
A “Modernização” Como Causa Imediata dos Problemas
A seguinte citação de Alberto Guerreiro Ramos, um dos poucos cientistas
sociais brasileiros de renome internacional, aponta na
direção de uma resposta para estas questões. Guerreiro
Ramos, é importante salientar, teve seus direitos políticos
cassados durante o autoritarismo militar e foi também
criticado e marginalizado pela esquerda. Ele faleceu na
década dos anos 80 (após lecionar na Universidade do Sul da
Califórnia). Vejamos a citação:
“Os resultados atuais da modernização, tais como a insegurança
psicológica, a degradação da qualidade da vida, a poluição,
o desperdício à exaustão dos limitados recursos do planeta,
e assim por diante, mal disfarçam o caráter enganador das
sociedades contemporâneas. A autodefinição das sociedades
industriais avançadas como portadoras da razão está sendo
diariamente solapada. Esse clima de perplexidade pode
viabilizar uma reformulação teórica de enorme magnitude.”
(“A Nova Ciência das Organizações”, p. 22)
Ou seja, estes problemas são os resultados da chamada modernização. E o
que está por detrás desta corrida insana entre as nações
pela dita modernização? Ora, o próprio significado da
palavra “modernização” alude, sobretudo, à capacidade de
competir economicamente em termos internacionais. O que está
por detrás da verdadeira compulsão pela modernização,
portanto, é a desenfreada ou incontrolável competição entre
as nações, numa espécie de guerra econômica de todos contra
todos no cenário internacional. E por que é tão
incontrolável (e, assim, tido como necessário) este
processo, cujo único fim previsível são as catástrofes? Por
que não existe força capaz de controlá-lo?
Por Que a “Modernização” Torna-se Necessária?
A resposta é simples e diz respeito ao fato de que, como vimos
anteriormente, não existe no mundo de hoje força capaz de
regular, de controlar ou de harmonizar a atuação das grandes
organizações. E elas, por sua vez, não podem deixar de
buscar sempre ganhos de produtividade (que significa a
capacidade de produzir mais e melhor com a mesma quantidade
de recursos, ou até com menos recursos), e outras melhorias
deste tipo, isto é, de buscarem a modernização, o que
significa uma maior competitividade econômica internacional.
A Competição Entre as Grandes Organizações
As grandes organizações estão obrigadas à dita modernização, ou seja,
aos ganhos de produtividade etc., porque elas sabem que se
deixarem de agir assim serão destruídas, na medida em que
serão derrotadas na competição com as outras gigantescas
organizações com as quais disputam. E como também vimos, são
elas que têm como fantoches os governos, pelo menos dentro
da debilidade e da imoralidade que são absolutamente
inerentes ao modelo liberal. Elas arrastam, deste modo,
irresistivelmente os países para esta guerra econômica.
Esta guerra tem inclusive forçado a criação de grandes blocos econômicos
de países, pois as grandes organizações dos países pequenos
e médios necessitam de uma dimensão de mercado que lhes
possibilite ganhos de escala, a fim de que sejam capazes de
competir de igual para igual com aquelas dos grandes países.
A Fraqueza do Modelo Liberal
Assim sendo, vemos que no mundo se estabelece esta espécie de corrida
incontrolável pela modernização. O importante é
compreendermos que, dentro do cenário dos atuais modelos de
organização política, nada nem ninguém possui a força
suficiente para controlar ou impedir este processo. Isto
porque, como vimos, estes modelos, quer liberais ou
marxistas, não garantem ao mesmo tempo liberdade,
oportunidades iguais e adequação entre funções e
capacidades, nos processos de seleção dos governantes. E,
assim sendo, não promovem uma boa seleção dos governantes.
Isto ocorre sobretudo em relação aos dirigentes do Estado, pois nas
grandes empresas a busca pela competitividade impõe que se
atenda à regra da adequação entre funções e capacidades,
pelo menos em termos técnicos (pois em termos ético-morais a
seleção das empresas também é questionável). Isto as torna
ainda mais poderosas em relação aos governos estatais,
porque seus dirigentes são freqüentemente mais capazes, pelo
menos tecnicamente, do que os dirigentes políticos das
nações. Um verdadeiro absurdo, porém real.
A esta inerente e inescapável incompetência dos governantes, soma-se no
caso do modelo liberal a fraqueza ou debilidade de uma
organização social frouxa, fragmentada. Neste modelo, como
vimos, os governantes não raro são fantoches que têm suas
caríssimas campanhas eleitorais financiadas pelas grandes
organizações. Isto, é claro, é um dos principais mecanismos
geradores da imensa corrupção que é absolutamente inerente
às democracias liberais. E a corrupção em grande escala
resulta em uma deformação de todo o processo de
desenvolvimento, pois as grandes decisões políticas,
econômicas etc., acabam sendo viciadas e desviadas por causa
dos interesses privatistas de indivíduos e grupos que as
influenciam.
Nas vezes em que isto aparenta não ocorrer, e chega ao governo algum
tipo de demagogo-populista, que é a única outra
possibilidade dentro de regras políticas tão incompetentes
quanto corruptoras, então este governo demagógico-populista,
mesmo que pretendesse tomar medidas realmente saneadoras,
seria totalmente impotente ante a força avassaladora das
grandes corporações (públicas e privadas). A história
recente apresenta claros exemplos deste tipo, a começar pelo
Brasil, com suas cíclicas rupturas constitucionais e seus
golpes militares.
A Incompetência do Modelo Marxista
Os países que adotaram o modelo marxista, a exemplo da ex-União
Soviética, também não evitaram o destino de serem tragados
pela força desta guerra pela competitividade imposta pelos
países mais industrializados organizados de forma
democrático-liberal. Esta derrota, no entanto, deve-se menos
aos méritos destes últimos, e muito mais ao colapso interno
gerado pela rigidez e pela excludência da falta de
liberdade, a qual afronta a dignidade e embota a
criatividade, somente podendo resultar, portanto, numa
insatisfação e numa ineficiência generalizadas.
É importante que se perceba que este processo, que como vimos é
incontrolável dentro do quadro dos atuais modelos, é o
responsável tanto pelas crescentes agressões ao ambiente
natural, quanto pelo quadro de excludência econômica e
social do subdesenvolvimento. Examinemos um pouco mais
detalhadamente como isto se dá, tomando para análise
exemplos concretos.
O Exemplo da Destruição da Floresta Amazônica
Consideremos o caso da crescente destruição da floresta Amazônica, um
dos maiores crimes ecológicos contra a natureza e contra a
humanidade, e também o caso da miséria em que se encontram,
pelo mínimo, cerca de trinta milhões de brasileiros, isto é,
examinemos o caso do subdesenvolvimento brasileiro. Estes
exemplos, é claro, por analogia servirão para explicar o
caso de outras graves agressões ecológicas, bem como a
miséria, até mesmo bem maior que a do Brasil, que avilta
tantas outras nações.
Quais os agentes imediatos da destruição da floresta Amazônica? Uma
combinação da miséria de muitos imigrantes que afluem para
aquela região em busca de empregos ou de um pedaço de terra
que lhes permita sobreviver, com a busca pela riqueza por
parte de indivíduos e empresas que se deslocam para aquelas
terras para explorar a madeira, criar gado, plantar,
explorar minérios, e assim por diante. O motivo de muitos é
a sobrevivência, que estava ameaçada pela miséria e falta de
empregos em suas regiões de origem, e de outros são as
oportunidades de lucros maiores do que obteriam em suas
regiões de origem. Estes são os agentes diretos da
exploração mal planejada, que resulta na destruição talvez
irreparável de espécies animais e vegetais, que compõem
aquele ambiente natural cuja riqueza e importância ecológica
não têm par no planeta.
E por que este processo destrutivo tão grave não é impedido em seus
aspectos criminosos? Por que não é ordenado e controlado de
forma científica e planejada quanto à exploração possível e
devida da floresta, dentro de um critério de desenvolvimento
sustentável? Obviamente, por causa da incompetência e da
impotência dos governantes, cuja causa, conforme já
mostramos antes, é a incompetência e a desonestidade
inerente ao processo eleitoral de escolha dos governantes,
acrescida da organização frouxa (e, portanto, que não gera
suficiente força política ou de coerção), que caracterizam
as principais instituições do sistema político liberal.
Se poderia argumentar que tivemos longos períodos intercalados de
autoritarismo militar. Mas o que prova isto? Apenas, de um
lado, reforça o argumento exposto da enorme fraqueza e da
incompetência do modelo liberal, e de outro, que os
comandantes militares em questão, certamente também
influenciados pelas idéias dominantes, não honraram suas
corporações, suas missões, nem seus juramentos de proteger e
zelar pelos interesses maiores da nação. De qualquer modo,
as ditaduras militares não são modelos que dominem o
pensamento das elites, nem sequer das elites militares, e
quando inevitavelmente ocorrem, sobretudo nos países pobres,
ocorrem muito mais pela incompetência e crise das
instituições liberais (ou mesmo marxistas), e não por se
constituírem modelos acabados e duradouros. Prova disto é
que acabam sempre refluindo para os modelos dominantes. Os
quais novamente se mostram incompetentes, geram crises etc.,
e dão espaço para novos golpes ditatoriais.
O exemplo concreto em questão, da destruição da floresta Amazônica,
portanto, está clara e diretamente ligado à incompetência e
à fraqueza dos governantes, que é característica central das
democracias liberais. E que dizer então da miséria, da
corrupção e da violência que caracterizam o
subdesenvolvimento brasileiro? A sua perpetuação, isto é, a
incapacidade da nação superar este quadro trágico, ano após
ano, década após década, também está, é claro, diretamente
ligada à incompetência e à debilidade dos governantes gerada
pelo modelo liberal, conforme vimos anteriormente ao
analisarmos os efeitos desvirtuadores e nocivos da
influência das grandes organizações sobre o processo de
desenvolvimento. No caso brasileiro fica patente a relação
deste quadro com o modelo liberal, até mesmo porque neste
país ainda não tivemos a aplicação de um modelo marxista de
organização.
As Origens do Subdesenvolvimento
Mas, a questão de como se gerou inicialmente esta miséria exige uma
análise mais ampla, sobretudo porque há países que aplicam o
modelo liberal e que são ricos, e onde a miséria absoluta
foi praticamente abolida, ou existe em uma dimensão
muitíssimo menor do que nos países pobres. E, assim sendo,
estes países são freqüentemente apresentados como modelos a
serem copiados. Em outras palavras, a questão que se impõe
aos subdesenvolvidos, e que poucos parecem compreender
claramente é: se este modelo deu certo lá, por que não
consegue dar certo aqui?
Ou seja, por que estes países ricos venceram no passado e continuam
vencendo no presente a corrida pela modernização, isto é,
pela produtividade e pela qualidade de suas economias, e não
raro até mesmo aumentando a vantagem relativa que os separa
dos países pobres?
A resposta para a questão do início destas grandes diferenças de
riquezas entre os países está, evidentemente, ligada ao
período de exploração colonialista. Com o advento das
grandes navegações e, sobretudo, com o advento da revolução
industrial alguns países passaram a exercer pela força um
domínio econômico e de outros tipos sobre outros países ou
regiões do planeta. Estas nações estabeleceram “colônias”,
as quais serviram tanto como fontes de matérias primas
baratas, quanto como mercados consumidores cativos para a
crescente industrialização das metrópoles.
Aqui no Brasil, por exemplo, havia leis durante o período colonial que
proibiam o estabelecimento de qualquer tipo de indústria,
coisa que só mudou a partir do momento em que a família
real, expulsa de Portugal pelos exércitos de Napoleão, veio
estabelecer-se por algum tempo no Brasil. A razão da
existência destas leis visava, é claro, garantir que o
Brasil permanecesse apenas como um mercado consumidor de
produtos manufaturados pela metrópole, ou pelo menos
comercializados através dela.
A Industrialização e a Geração do Valor Agregado
Por que isto é tão importante? Precisamos perceber claramente que, a
menos que um país possua excepcionais riquezas naturais (por
exemplo, os países que possuem muito petróleo em seu
território, ou uma população pequena em relação a uma
dimensão territorial muito grande), não existe outra maneira
de alcançar-se o patamar de riqueza atingido pelas nações
mais ricas do planeta senão através de um intensivo processo
de industrialização. Isto porque, a cada vez que uma matéria
prima passa por um processo de transformação industrial de
qualquer tipo, é agregado a ela um valor adicional que
inclui o ganho com o lucro obtido neste processo de
transformação. Em economia dá-se o nome de “valor agregado”
a esse diferencial obtido em cada momento do processo
produtivo. A industrialização permite, portanto, a geração
de uma estrutura econômica muito mais complexa, com mais
etapas de transformação no processo produtivo, sendo que a
cada uma destas etapas mais valor é adicionado.
Esta maior complexificação industrial gera vários efeitos positivos
quanto à geração de maiores riquezas. Por exemplo, gera uma
taxa de ocupação maior da força de trabalho; gera uma
complementação interindustrial que permite processos
produtivos com um número cada vez maior de etapas de
transformação; gera a necessidade da complementação de uma
gama muito ampla de serviços de todo o tipo; e esta
complementação entre os setores da agricultura e da
exploração de outras matérias primas, da indústria e dos
serviços e comércio gera ganhos de produtividade
impressionantes, sobretudo, através da crescente mecanização
dos processos produtivos de todo tipo.
Tudo isto aconteceu primeiro em algumas nações e graças, principalmente,
às vantagens obtidas sobre as outras, a ferro e a fogo,
através da dominação colonialista. Quando este processo já
estava bastante avançado, então o discurso dominante passou
a ser diferente, e chegamos, após duas grandes guerras
mundiais (que, no fundo, foram guerras entre nações ricas
pela disputa de espaços coloniais ou neocoloniais), a este
período de globalização econômica caracterizado pela “livre”
competição internacional.
A Relativa e Conveniente Liberdade Econômica
Esta ampla e “livre” globalização econômica, ou seja, esta guerra com as
armas da “modernização” (produtividade etc.) se caracteriza
por alguns aspectos ilusivos e muito perversos. Primeiro, a
dita “liberdade” vale apenas para alguns fatores econômicos,
isto é, vale de um modo geral para os produtos primários,
produtos industrializados, inclusive máquinas, e para os
serviços. Mas, não vale para o fator trabalho. Este fator
econômico não goza da liberdade de deslocar-se à vontade.
Isto, evidentemente, visa garantir que as vantagens obtidas
por alguns, não sejam ameaçadas por movimentos migratórios
em busca de melhores salários, oportunidades de emprego etc.
A liberdade da “modernização”, portanto, é mais
interessantemente “moderna” para alguns do que para outros.
Em segundo lugar, esta liberdade seletiva (que existe apenas para
determinados fatores econômicos) inerente à globalização e à
modernização, é um processo do tipo “raposa dentro do
galinheiro”. Vejamos se não é bem o caso. Como vimos,
trata-se de uma luta por produtividade etc., entre
competidores que não partiram em condições de igualdade, uma
vez que não podemos ignorar o período anterior a este, de
séculos de exploração colonialista. Hoje, portanto, a
competição se estabelece entre forças muito desiguais e num
jogo de guerra como este, no qual o que pode mais sofre
menos, esta liberdade seletiva apenas tende a manter as
diferenças iniciais, e muitas vezes até mesmo a acentuá-las,
o que caracteriza claramente um processo no qual os mais
fracos não têm chance alguma de vitória. Vemos, portanto,
que esta liberdade é como a liberdade da raposa dentro do
galinheiro, muito interessante apenas para um dos lados.
A Finitude dos Recursos Naturais
Até mesmo do ponto de vista meramente relacionado ao consumo das
principais matérias primas é possível perceber que os mais
pobres jamais poderão alcançar, dentro das atuais regras do
jogo, o padrão de riqueza alcançado pelos mais ricos. Apenas
para citar um exemplo conhecido, examinemos uma projeção
para a população mundial do nível de consumo per capita de
petróleo, que ainda hoje é um gerador de energia
indispensável.
Se levarmos em conta o consumo médio per capita dos EUA, do
Canadá, ou mesmo da Alemanha e do Japão, que são exemplos de
países ricos, que aconteceria? Esta questão não é nem um
pouco absurda, uma vez que se imaginamos que os países
pobres devem imitar o exemplo dos países ricos, então estes
também desenvolverão um padrão de consumo e uma matriz
energética bastante parecidos. Neste caso, aconteceria que
todas as reservas conhecidas de petróleo seriam consumidas
em pouco mais de seis anos, segundo os dados da “British
Petroleum” (“BP – Statistical Review of World Energy”, 06/85
e 06/87).
Examinemos um pouco estes dados. As reservas mundiais de petróleo seriam
de 95.200 milhões de TEP’s (toneladas equivalentes de
petróleo). A população dos EUA é de cerca de 250 milhões e
seu consumo em 1986 foi de cerca de 750 milhões de TEP’s.
Enquanto sua população é vinte vezes menor do que a
população mundial, seu consumo de petróleo é apenas quatro
vezes menor que o consumo mundial, que em 1986 era de cerca
de 3.000 milhões de TEP’s. Portanto, se projetamos seu
consumo per capita (750 dividido por 250 = 3), pela
população mundial que é de 5.000 milhões (cinco bilhões) de
pessoas, teremos um consumo mundial cinco vezes maior, ou
seja, de 15.000 milhões de TEP’s. Ora, dividindo as reservas
mundiais pelo que seria o consumo mundial (95.200 por 15.000
= 6,3) vemos que em pouco mais de seis anos teríamos
esgotado as reservas mundiais.
Assim sendo, mesmo que estes dados possam ser discutidos, e que as
reservas a serem descobertas dobrassem, isto nos daria um
horizonte de apenas doze anos, o que não mudaria muito o
panorama que queremos demonstrar. Ou seja, que obviamente
não é possível que todos os países pobres reproduzam o
padrão de desenvolvimento e riqueza dos países ricos. Isto é
uma impossibilidade material, pura e simplesmente. Deste
modo, mesmo por este ângulo, podemos ver que a liberdade e a
modernização que “deu certo” para os países ricos não tem a
menor chance de dar igualmente “certo” para os países pobres
nos quais, é sempre bom lembrar, vivem duas terças partes da
população mundial. A maioria, no entanto, parece não ter
conhecimento destes duros fatos da realidade mundial.
“Dar Certo” Por Meio da Exploração
Portanto, estes países que são exemplos de lugares onde o modelo liberal
“deu certo”, estabeleceram uma prosperidade que só se tornou
possível às custas da miséria de grande parte da população
mundial, e continuam “dando certo” às custas de formas
neocolonialistas de exploração, que lhes garantem uma
vitória na guerra ou, como dissemos, na “corrida maluca” da
modernização, que garante a manutenção deste estado de
coisas tão injusto.
Muitas pessoas, em vista destas condições gerais, afirmam que o Brasil é
um país que ainda pode “dar certo” ou um país de futuro.
Isto porque devido aos seus recursos naturais, às suas
dimensões territoriais etc., o Brasil poderia ser uma
espécie de último vagão no trem dos países que se beneficiam
da exploração dos demais. Mesmo que isto fosse verdade,
deveríamos chamar a isto de “dar certo”? Isto é,
estabelecermos um belo nível de vida às custas da miséria da
Bolívia, do Paraguai etc.? Podemos chamar a isto “dar certo”
se quisermos, mas não podemos deixar de reconhecer que do
ponto de vista do bem-estar da humanidade como um todo, este
é um modelo fracassado, que implica na impossibilidade de
uma solução global para o problema do subdesenvolvimento e,
portanto, implica em uma imoralidade imensa.
Estando claro, deste modo, como se deu a origem do enorme diferencial de
riqueza entre as nações, e como este quadro de exclusão e
injustiça se perpetua, podemos agora perceber que,
especialmente no que diz respeito às possibilidades de
superação da miséria dos países pobres (dentro de um cenário
como este, cuja realidade apenas os inocentes ou os espertos
podem ignorar, ou pretender ignorar) fica ainda mais
evidente o fracasso do modelo liberal.
Um modelo de organização sócio-política como o liberal que, como vimos,
se caracteriza por um péssimo processo de escolha dos
governantes e pela fraqueza e pequena capacidade de coerção
(ou força política) destes dirigentes, significa na melhor
das hipóteses a manutenção do atual estado de coisas. Em
vista disso, não é de surpreender que os países ricos o
considerem tão interessante.
A Necessidade de Um Novo Modelo Político
Os países pobres, no entanto, têm como sua única esperança o advento de
novas instituições, sobretudo de um novo modelo político que
garanta a seleção de governantes moralmente confiáveis e
tecnicamente competentes, bem como que garanta a estes
governantes uma grande capacidade de coerção, a fim de que
possam controlar, disciplinar e harmonizar em prol do
bem-estar coletivo o poder das gigantescas organizações,
capacidade esta que só poder advir de forma natural e
benigna através de uma boa organização de toda a população.
8 – A DEMOCRACIA DO
FUTURO
Requisitos Para Um Modelo Alternativo Competente
Tendo deixado claro o fracasso dos modelos dominantes e porque eles não
poderão assegurar jamais, especialmente em relação aos
países pobres do mundo, uma ordem social justa e competente,
que possa significar a superação do quadro de exclusão e
miséria de tantos milhões que assistimos em nossos dias,
chegamos agora ao momento em que devemos apontar pelo menos
algumas diretrizes gerais a respeito de como seria um modelo
político alternativo, que tivesse pelo menos a chance de
alterar substancialmente este panorama.
Já vimos anteriormente que a premissa, isto é, a visão de humanidade por
detrás deste modelo deve ser aquela que nos mostra a
humanidade como uma fraternidade, o que implica no
reconhecimento da unidade essencial dos seres humanos, bem
como das suas grandes diferenças de capacidades. Quais,
então, seriam as características principais de um novo
modelo de organização política, que atendesse às
necessidades antes expostas para um processo justo e
competente de seleção dos governantes, bem como à
necessidade de dotar estes governantes do suficiente poder
de coerção?
Como vimos anteriormente, os requisitos essenciais que devem existir
simultaneamente para um competente processo de escolha dos
dirigentes são: 1) liberdade; 2) igualdade de oportunidades
ou de condições nas disputas políticas; e 3) uma boa
adequação entre a responsabilidade ou o grau de dificuldade
das funções e as características da consciência social (ou
dos níveis de capacidade) da população. Já no que diz
respeito à geração do necessário poder de coerção pelo
sistema, de modo que os governantes possam disciplinar a
atuação das grandes organizações, o requisito necessário é
que o modelo político promova uma organização coesa de toda
a população.
Em vista, sobretudo, das características dos diferentes níveis de
consciência da população e da simultânea necessidade de que
a liberdade de escolha seja preservada, bem como garantida
uma igualdade de oportunidades na disputa política, a
primeira conclusão é a da total inviabilidade de eleições
diretas envolvendo grandes populações.
Representação em Cascata: a Democracia do Futuro
À primeira vista nos encontramos em um beco sem saída. Mas, na
realidade, um pouco mais de reflexão nos mostra que há uma
solução consistente para este aparente paradoxo. Trata-se de
um modelo que contemple eleições muito menos diretas, e que
garanta que estas eleições nunca impliquem em processos de
escolha envolvendo diretamente grandes massas, muito embora
preservando a liberdade e uma rigorosa proporcionalidade
entre as várias pequenas circunscrições eleitorais.
Deste modo, este sistema teria como base circunscrições eleitorais
bastante pequenas, a exemplo de vilas, vizinhanças, pequenos
bairros ou municipalidades bem pequenas, de preferência
jamais ultrapassando uma dimensão bastante humana, na qual o
conhecimento pessoal entre os indivíduos não fosse uma coisa
impossível ou mesmo extremamente difícil. A que número de
pessoas estaríamos aproximadamente nos referindo? Este
número poder variar significativamente em se tratando de
áreas rurais ou urbanas, uma vez que nas áreas urbanas de
grande concentração populacional as distâncias físicas entre
um número expressivo de pessoas são bastante pequenas, com
grandes edifícios etc., e nestas condições de comunicação
interpessoal muito mais facilitada, o número da população
desta primeira circunscrição político-eleitoral poderia ser
significativamente maior do que em áreas de grande dispersão
populacional, onde as pessoas tenham dificuldades muito
maiores de estabelecerem contatos face a face.
Estas diferenças de número de pessoas neste primeiro nível eleitoral não
têm importância alguma, uma vez que sempre se manterá uma
rigorosa proporcionalidade entre representantes e
representados. Se, apenas por hipótese, o coeficiente for de
50 para 1 neste primeiro nível, então, se numa circunscrição
houver 1.000 eleitores, haveria 20 representantes do
primeiro nível. Se outra circunscrição básica contar com
apenas 200 eleitores, ela elegerá apenas quatro
representantes do primeiro nível, e assim por diante. A
rigorosa proporcionalidade sendo um óbvio requisito para a
igualdade de oportunidades.
O modelo de representações sucessivas se estreitaria gradualmente como
uma pirâmide, através do nível dos Distritos, das
Micro-regiões, dos Estados (ou Províncias), e daí para o
Congresso Nacional, o qual escolheria um gabinete com um
chefe executivo, tal como um primeiro-ministro em um sistema
parlamentarista. Convém notar, no entanto, que este sistema
assemelha-se ao sistema parlamentarista convencional apenas
no topo da pirâmide, sendo todo o processo de escolha e
seleção completamente diferente dos sufrágios de massa até
chegar ao nível do Congresso Nacional.
Se levarmos em conta as enormes vantagens deste sistema em relação aos
atuais torna-se quase inacreditável que um sistema assim não
tenha sido experimentado seriamente em nenhum lugar, ao
menos que tenhamos conhecimento. Examinemos um pouco estas
vantagens, em comparação com os atuais sistemas dominantes:
a democracia liberal e o totalitarismo marxista.
A Liberdade é Garantida
Em relação ao totalitarismo marxista a sua grande vantagem é que a
liberdade é absolutamente preservada neste sistema, enquanto
que nas chamadas ditaduras do proletariado a liberdade é
sacrificada. Neste contexto, é claro, só existe igualdade de
oportunidades para os membros do partido, se tanto. Ou seja,
não existe igualdade de oportunidades no totalitarismo
marxista, enquanto que neste sistema proposto ela existe, e
é quase tão grande quanto é possível humanamente
imaginar-se.
Quanto aos outros aspectos esta democracia do futuro, conforme nos
referimos no título, não perde em nada para o totalitarismo
marxista, o qual tem na adequação entre funções e
capacidades e na organização coesa de toda a população os
seus pontos fortes. Ora, estes pontos são igualmente fortes
nessa democracia do futuro, uma vez que ela é muito parecida
nestes particulares aspectos, sendo, na realidade, ainda
superior ao totalitarismo marxista, pois este exclui do
processo de escolha muitas pessoas inteligentes e capazes,
apenas porque elas não pertencem ao partido comunista, ou
assemelhados.
Um Processo com Igualdade de Oportunidades
Que dizer então da comparação com o sistema hoje hegemônico no mundo que
é a democracia liberal? A liberdade que é o ponto forte das
democracias liberais também é plenamente preservada nesta
democracia do futuro. Sob alguns aspectos, de fato, há até
mesmo mais liberdade nesta do que nas democracias liberais,
porque nestas últimas por vezes o voto é obrigatório,
enquanto na primeira é livre; nas últimas geralmente os
candidatos devem estar filiados a algum partido, na primeira
os candidatos podem ou não, dependendo de suas livres
escolhas, estarem filiados a algum partido; nas últimas para
ser candidato quase sempre a pessoa depende da escolha dos
partidos, mas nesta democracia do futuro a decisão depende
apenas de sua livre escolha. Vemos, assim, que mesmo sob
este aspecto que é o forte das democracias liberais, este
novo modelo de democracia não lhe fica devendo nada, e
talvez até mesmo tenha algumas vantagens.
Quanto a todos os outros aspectos esta democracia do futuro é muito
superior às democracias liberais. Ela garante uma imensa
igualdade de oportunidades nos processos eleitorais,
enquanto que nas democracias liberais apenas os
privilegiados materialmente, os comunicadores de massa e os
demagogos é que têm chance de serem eleitos para os cargos
de maior responsabilidade.
A Harmonia entre Funções e Capacidades
Quanto à adequação entre funções e capacidades quase não há necessidade
de comentários, tamanhas são as vantagens do modelo sugerido
em relação aos sufrágios de massa das democracias liberais.
Nesta democracia do futuro há uma gradual qualificação dos
eleitores, que foram os eleitos no nível imediatamente
inferior. É quase ridícula a comparação, mas qual seria o
percentual dos que elegeriam os representantes para o
Congresso Nacional neste novo modelo que não saberiam sequer
dizer o que é uma Assembléia Constituinte? Certamente este
percentual seria zero, ou seja, nenhum dos representantes
deste nível desconheceria uma questão tão elementar!
Comparemos isto com os 70,5 % que no Rio Grande do Sul não
sabiam responder a esta questão tão elementar, mas que
constituíram o próprio eleitorado que escolheu os
constituintes em 1986! Haveria necessidade de outras
comparações? Haveria alguma dúvida de que nesta democracia
do futuro teríamos um Congresso Nacional extraordinariamente
mais qualificado?
A Geração do Poder Necessário
Finalmente, também quanto à capacidade de gerar o suficiente poder de
coerção nas mãos dos dirigentes o modelo aqui defendido é
muitíssimo superior às democracias liberais. No modelo
proposto a população está toda ela muito bem organizada, não
de forma frouxa e atomizada como nas democracias liberais. É
quase impossível reprimir-se violentamente um sistema como
este. Se, por hipótese, uma força militar impedisse o
funcionamento do Congresso Nacional, ainda assim todo o
resto da população continuaria politicamente organizada, em
uma cascata de pequenas assembléias, na maioria dos casos
tão pequenas que poderiam se reunir em uma ampla sala de
estar. Como reprimir uma organização assim? É algo quase
impossível.
Tudo isto sem mencionar o fato evidente de que talvez a
maior força política nesta democracia do futuro seja a
grande e incomparavelmente maior qualificação (em relação à
democracia liberal) dos seus dirigentes mais elevados, o que
lhes garantiria, apenas por este aspecto, enorme apoio
popular. Que diferença dos exemplos recentes da política
brasileira, onde vemos casos e mais casos de corrupção, de
incompetência, e assim por diante.
Necessita-se de Um Exemplo para as Nações
O país que conseguir em primeiro lugar adotar o modelo de organização
política desta democracia do futuro, na qual existe, de
fato, uma real chance para que a necessária sabedoria chegue
até os cargos de maior poder e responsabilidade, estará,
deste modo, servindo aos mais elevados interesses do seu
próprio povo, e estará também dando um exemplo que
certamente ajudará e inspirará outros povos.
Em vista das análises anteriores, parece desnecessário compararmos ainda
mais este modelo com os atualmente dominantes no mundo
inteiro. Ele parece sob todos os aspectos muito mais eficaz
do que os atuais, tanto em termos de competência do processo
de escolha dos dirigentes, quanto em termos de gerar um
poder de coerção muito maior nas mãos dos dirigentes, de
modo que eles possam disciplinar a atuação das gigantescas
organizações de caráter privatista, pois este novo modelo
organiza de forma muito mais coesa toda a população de
qualquer sociedade.
Tanto a diferença na qualificação dos governantes, quanto na coesão
organizacional, mudariam substancialmente o quadro caótico e
perpetuador de injustiças de todo o tipo que hoje temos. E
isto é de importância difícil de exagerar, sobretudo para as
nações pobres, que hoje não têm esperança alguma, dentro dos
atuais modelos, quer liberais, quer marxistas, de superarem
o círculo vicioso da miséria e do subdesenvolvimento.
O Humanitarismo como Instrumento de Transformação
À luz da compreensão de todos os aspectos que foram expostos – acerca da
realidade ideacional do mundo e, conseqüentemente, da
realidade político-econômica dela derivada – podemos agora
perceber claramente o imenso valor teórico e prático dos
princípios fundamentais do Humanitarismo.
A Sociedade Humanitarista é uma organização que tem como objetivo
difundir estes princípios e se constitui em um exemplo
prático de aplicação dos princípios do Humanitarismo. Deste
modo, ela oferece um exemplo concreto do modelo de estrutura
organizacional que pode tornar possível as soluções para os
grandes problemas do mundo. Este aspecto de oferecer um
exemplo concreto é absolutamente necessário ao Humanitarismo
enquanto movimento de transformação social, até mesmo porque
predicar sem viver aquilo que se professa não é mais do que
uma farsa.
Tão somente a constituição de
uma organização com estas características é que, de um lado,
assegura para a Sociedade Humanitarista o direito moral de
pregar as soluções para os grandes problemas do mundo e, de
outro, pode algum dia gerar a força necessária para a
realização desta gigantesca tarefa, em face dos tremendos
obstáculos e antagonismos de toda ordem a serem enfrentados.
Por estas razões parece oportuno concluirmos este texto com
um capítulo a respeito do Humanitarismo e do projeto da
Sociedade Humanitarista.
9 – A SOCIEDADE
HUMANITARISTA E A IMPORTÂNCIA DA COOPERAÇÃO
|
“De
cada um segundo suas capacidades,
a cada um segundo suas necessidades.” |
A Responsabilidade da Cooperação
Em vista da seriedade e da brutalidade da atual situação mundial, muito
especialmente a situação dos países pobres (ditos
subdesenvolvidos), é muito evidente a responsabilidade de
toda e qualquer pessoa capaz de alguma ação inegoísta no
sentido de fazer aquilo que estiver ao seu alcance, por
pouco que seja, visando cooperar com atividades que promovam
melhoramentos eficazes das condições miseráveis nas quais
padecem tantos e tantos seres humanos.
O Humanitarismo, enquanto doutrina sócio-política, afirma de forma
categórica a existência de capacidades suficientes dentro da
família humana para superar esta atual situação de miséria e
desespero. A própria palavra – humanitarismo – procura
aludir a esta presença de forças beneficentes em quantidade
suficiente dentro da humanidade. Ela é uma afirmação
vigorosa a respeito da existência destas forças benignas
dentro da humanidade. Mas não é uma afirmação ingênua ou
romântica, que desconhece o fato de que a maioria dos seres
humanos ainda é preponderantemente egoísta. Já enquanto um
movimento, o Humanitarismo é uma tentativa prática de
demonstrar a viabilidade da superação da situação atual, bem
como de auxiliar substancialmente nesta tarefa.
Embora afirme que a responsabilidade pela situação atual seja dividida
por todos os seres humanos, o Humanitarismo também afirma o
fato de que esta responsabilidade não toca a todos com igual
peso (em vista da diversidade de capacidades entre os
indivíduos). Ela é muito maior no caso das pessoas que se
encontram em condições mais favoráveis e no caso das pessoas
que possuem maior capacidade de compreensão. Estas pessoas
de maior capacitação somente encontrarão paz e felicidade em
suas vidas na medida em que responderem apropriadamente a
esta responsabilidade.
A Necessidade da Cooperação
Neste sentido, há um fato decisivo que deve ser ponderado e refletido
com muito vagar. Este fato é a necessidade de uma ação
cooperativa entre muitas e muitas pessoas, todas trabalhando
em prol deste objetivo de superação das reais causas
geradoras da situação atual. Como mostramos, o domínio das
gigantescas organizações é uma característica central do
mundo de nossos dias, para o bem e para o mal. E somente a
união ou a cooperação inteligente de um número maior ainda
de pessoas é que poderá, algum dia, fazer frente ao poder,
hoje sem rival, das grandes organizações.
É necessário que se compreenda que organizações que se dediquem a
problemas específicos jamais serão suficientes. Na verdade,
ao fragmentarem as forças que deveriam necessariamente estar
unidas, estas organizações tornam-se parte do problema que
elas mesmas procuram resolver. Isto porque elas dividem e
assim enfraquecem os recursos e as energias escassas, os
quais apenas estando unidos podem gerar o poder suficiente
para uma transformação realmente eficaz.
O Efeito Nocivo das Organizações Parciais
Os vários problemas específicos a que estas organizações fragmentárias
se dedicam somente poderão ter solução efetiva quando um
grande número de pessoas reconhecerem a necessidade de uma
solução global e, portanto, se reúnam em uma organização que
englobe e contemple como um todo a solução destes vários
problemas específicos (a exemplo das causas da superação da
miséria e da fome, da igual dignidade das mulheres, dos
direitos dos povos indígenas e de todas as minorias étnicas
e de outros tipos, da conservação do ambiente natural, da
proteção aos animais etc.).
Do contrário, ao promoverem a fragmentação, estas organizações isoladas
alimentam a própria causa dos males que elas procuram
combater. Transformam-se em causas combatendo os seus
próprios efeitos, numa espécie de círculo vicioso que não
poderá jamais alcançar os objetivos visados. Isto porque,
conforme apontamos, a falta de uma força ou poder que possa
fazer frente às grandes organizações é uma das causas
principais de todos os males específicos da situação mundial
atual.
A Necessidade de Um Exemplo Prático
Além desta necessidade de que seja formada uma grande organização de
caráter global, existe também a necessidade de que esta
organização exemplifique praticamente uma solução para a
outra causa principal dos problemas atuais que, como vimos,
é a inexistência de um bom processo de seleção dos
dirigentes. Uma organização forte mas mal dirigida também se
converterá em uma causa a combater os seus próprios efeitos.
Estes dois aspectos em conjunto são condições necessárias
para a superação do quadro atual.
A Sociedade Humanitarista foi criada para ser uma organização com estas
características. De um lado, é uma organização de caráter
global e, de outro, ela corporifica na prática um competente
e justo processo de escolha de seus dirigentes. Ela visa
oferecer, portanto, não um mero paliativo, mas uma solução
real, que combata as verdadeiras causas dos vários problemas
específicos.
A Sociedade Humanitarista nasceu para ser uma organização internacional,
embora seu primeiro ramo tenha surgido no Brasil (a SHB –
Sociedade Humanitarista no Brasil). A SHB foi fundada em 20
de julho de 1986, na cidade de Porto Alegre, como uma
sociedade civil sem fins lucrativos. Tem seu Estatuto
registrado nesta mesma capital, o qual, como dissemos,
exemplifica concretamente o novo processo de seleção dos
dirigentes que o Humanitarismo propõe.
Difusão de Novos Valores e Idéias
Suas linhas básicas de atuação desenvolvem-se ao redor de três eixos ou
colunas principais. O primeiro é o da Cultura, entendida no
sentido da criação de oportunidades para o desenvolvimento
das capacidades humanas, tanto em termos técnicos, quanto (e
principalmente) em termos da transmissão de valores éticos
derivados dos princípios do Humanitarismo. Esta primeira
linha implicará em reuniões, livros, cursos, palestras etc.
Estes deverão ser adaptados aos diferentes níveis de
capacitação pessoal, sem comprometimento das verdades
fundamentais expostas pelo Humanitarismo, do mesmo modo que
o ensino das quatro operações não compromete a verdade da
álgebra ou do cálculo superior.
A Política Como Instrumento de Transformação
O segundo eixo é o da Organização Política no sentido restrito da
formação de um movimento político humanitarista, o qual
poderá implicar inclusive na futura formação de um partido
político. Nos primeiros tempos este movimento servirá mais
para divulgar amplamente as idéias do Humanitarismo, do que
como uma alternativa real de transformação social. Mesmo
assim sua importância não é pequena, pois há poucos
instrumentos mais eficazes para a difusão de idéias do que
um partido político.
A Economia Como Instrumento de Transformação
O terceiro eixo é o das Atividades Econômicas Visando (a prática efetiva
do) Auxílio Mútuo. Concretamente, objetiva-se a criação de
vários empreendimentos e organizações econômicas, todas
pertencentes ou ligadas à Sociedade Humanitarista. Estas
empresas deverão por em prática nas relações de trabalho os
princípios do Humanitarismo, criando oportunidades para que
muitos possam ganhar a vida retamente, ao mesmo tempo em que
auxiliam a promoção de uma causa da maior importância. Estas
atividades serão geradoras de bem-estar tanto para os
trabalhadores diretos, quanto para todos os associados que
terão acesso a muitos bens e serviços a preços muito
reduzidos, através de descontos etc.
Serão empreendimentos tais como editoras, escolas, muitos serviços, e
mesmo indústrias e produção agrícola, que serão criados à
medida que a Sociedade Humanitarista for se desenvolvendo.
Estas empresas poderão tanto gerar recursos para a promoção
dos ideais humanitaristas, quanto aproximar e viabilizar a
cooperação de muitas pessoas que de outro modo dificilmente
se aproximariam da Sociedade Humanitarista. Estes
empreendimentos não deverão produzir ou explorar serviços e
produtos supérfluos, obedecendo ao princípio ético de que o
luxo transforma-se em algo indevido quando muitos não
dispõem sequer do essencial na vida.
Unidade na Diversidade
O lema da Sociedade Humanitarista é UNIDADE NA DIVERSIDADE. Seu símbolo
é uma figura humana com os braços abertos, simbolizando a
irmandade de todos os seres humanos. As cores da Sociedade
Humanitarista são o branco, o azul, o verde e o vermelho. O
branco simbolizando a unidade, a integração de todas as
cores. E as cores azul, verde e vermelho (que são as cores
primárias do espectro-luz) simbolizando a diversidade. Das
combinações destas três surgem todas as outras cores, como
no exemplo de uma televisão a cores.
A União Faz a Força
A Sociedade Humanitarista, conforme indicam seus símbolos e suas
atividades propostas, tem como objetivo concreto integrar
cooperativa e harmoniosamente um grande número de pessoas.
Estas isoladamente, ou divididas em pequenas organizações,
muito pouco poderiam fazer de realmente transformador neste
mundo, regido por gigantescas organizações de cunho
privatista, isto é, que visam lucros privados, interesses
grupais, corporativos, sectários, regionais, nacionais etc.
A Sociedade Humanitarista afirma e visa demonstrar praticamente que os
seres humanos são capazes de cooperar harmoniosamente, desde
que organizados inteligentemente, ou seja, sobre os
fundamentos de princípios simples e verdadeiros. Não há nada
de novo neste propósito. As antigas tradições religiosas já
nos transmitiram esta orientação e este ensinamento, a
exemplo da seguinte passagem dos antiqüíssimos Vedas:
“Pequenos
esforços engenhosamente combinados
Tornam-se
extraordinariamente poderosos.
Elefantes
furiosos são amarrados
Por um cordão
de fibras de grama entrelaçadas.”
Os Princípios Fundamentais
Como uma doutrina ou filosofia
sócio-política o Humanitarismo está fundamentado em apenas
quatro grandes e simples princípios, cuja importância os
capítulos anteriores procuraram demonstrar. Estes princípios
foram apresentados na Introdução, mas cabe repeti-los:
1– Todos os
seres humanos constituem uma FRATERNIDADE.
2– Todos os
seres humanos possuem uma mesma origem e uma mesma natureza
essencial e, portanto, IGUAL VALOR.
3– Não obstante
a sua unidade e igualdade essenciais, os seres humanos
apresentam CAPACIDADES DIFERENCIADAS.
4– Em vista
destes princípios, a norma que deve presidir a justiça e a
harmonia possível entre os seres humanos é a da IGUALDADE DE
OPORTUNIDADES para o desenvolvimento de suas capacidades
individuais diferenciadas.
Uma Deliberada Simplicidade Doutrinária
As pessoas que se associam à Sociedade Humanitarista declaram sua adesão
tão somente a estes princípios, intencionalmente simples,
uma vez que esta organização visa demonstrar, na prática, a
possibilidade de uma cooperação e de uma convivência
harmoniosa entre pessoas muito diferentes, tanto em termos
culturais, religiosos etc., quanto em termos de capacidades
individuais, desde que elas possam concordar quanto a alguns
poucos princípios amplos e universais.
A simplicidade destes princípios fundamentais, deste modo, visa não
colocar obstáculos desnecessários ao relacionamento
harmonioso ou à cooperação frutífera entre indivíduos
pertencentes às várias tradições culturais e de diferentes
níveis de compreensão.
Além deste objetivo de não criar obstáculos indevidos à aproximação de
pessoas de diferentes tradições e capacidades, há outras
razões muito importantes porque o Humanitarismo como uma
doutrina busca evitar, tanto quanto isto for possível, uma
desnecessária complexidade. Estas razões estão relacionadas
com os perigos do intelectualismo. Isto é, com o perigo de
se atribuir uma importância exagerada às atividades
meramente intelectuais.
Os Perigos do Intelectualismo
O intelectualismo é outro dos terríveis equívocos ou falsidades que
dominam o mundo de nossos dias. Ele também brota muito
naturalmente das visões de ser humano hoje dominantes, na
medida em que elas não reconhecem claramente o fato e a
decisiva importância da existência, pelo menos em uma
minoria, de capacidades supra-intelectuais (de poder de
conhecimento intuitivo, ou seja, de uma verdadeira
capacidade de realização interior da Unidade por detrás de
toda a diversidade), que são inerentes ao nível de
desenvolvimento alcançado pelo menos por aqueles seres
humanos de maior nível de capacidades.
O mundo de hoje, em conseqüência disso, valoriza e premia exageradamente
o intelectualismo. Não percebendo que o conhecimento
meramente intelectual, embora tendo o seu lugar e a sua
importância (que não devem ser de modo algum desprezados),
também apresenta severas limitações.
O conhecimento meramente intelectual baseia-se na memória e na
comparação. Ele está aprisionado, portanto, dentro do campo
da dualidade e da separatividade e, deste modo, tende a
negar a existência da Unidade, bem como a menosprezar ou
mesmo a ignorar a existência da sabedoria, do altruísmo e da
virtude genuína entre os seres humanos (ainda que estes
preponderem de forma marcante apenas numa pequena minoria).
Isto, por sua vez, resulta inevitavelmente em valores éticos
e em concepções de deveres bastante equivocadas. Sem o claro
reconhecimento da Unidade e da simultânea extraordinária
diversidade de capacidades entre os seres humanos, como
procuramos demonstrar antes, não existe a menor chance de
soluções eficazes para os grandes problemas humanos duais, a
exemplo da dualidade entre liberdade e despotismo
(autoritarismo ou exacerbação da autoridade).
Apenas por estas razões o intelectualismo deve ser reconhecido como um
grave problema e como uma das grandes tragédias derivadas
das falsas concepções de ser humano hoje dominantes no
mundo. Como escreveu Francis Bacon, a ciência é um
instrumento que pode auxiliar muito aos seres humanos e que
precisa ser desenvolvida, mas ela não pode orientar, por
exemplo, nem sequer o seu próprio desenvolvimento. Isto
porque este desenvolvimento depende de uma clara e justa
avaliação de prioridades, a fim de que se possa discernir em
quais as áreas devem ser concentrados os recursos sempre
relativamente escassos à disposição dos projetos de pesquisa
científica.
A Necessidade da Verdadeira Sabedoria
Esta orientação do desenvolvimento da própria ciência, portanto, depende
de uma verdadeira sabedoria a qual, por sua vez, está
necessariamente ligada a valores éticos. E estes valores
éticos não dependem de qualquer processo meramente mecânico
ou quantitativo, mas sim do que Bacon chamava de “uma outra
ciência”, estes valores dependem de processos de natureza
interior ou intuitiva (do latim “in-tueri”, isto é, olhar
(“tueri”), sobre ou para dentro (in)) ou, se quisermos usar
as palavras do próprio Francis Bacon, dependem da
“contemplação e da meditação”.
Esta verdadeira sabedoria que é capaz, por exemplo, de discernir com
segurança as prioridades, não pode existir sem noções
éticas, e estas por sua vez só podem ter como fundamento
seguro e real a fusão entre conhecimento e virtude, isto é,
o genuíno altruísmo etc. Esta fusão implica numa
transcendência da dualidade e da separatividade, que são
características essenciais do conhecimento meramente
intelectual. Isto porque o conhecimento intelectual está
baseado na comparação, na memória, no dualismo – razão pela
qual os filósofos gregos o chamaram de “di-alética”, ou
seja, processo de conhecimento que implica em separar a alma
em duas partes, pois toda a comparação implica em duas
partes.
Estes limites do conhecimento intelectual tornam-se claramente
perceptíveis ao observarmos o fato de que todo conhecimento
intelectual é como um instrumento, o qual pode ser usado
tanto para construir quanto para destruir, tanto para curar
quanto para ferir, tanto para o bem quanto o para o mal. A
sabedoria necessita vitalmente, deste modo, da superação
desta dualidade, isto é, necessita da realização da Unidade.
E também por esta razão a afirmação filosófica da Unidade é
um conceito essencial do Humanitarismo.
Para muitos estas questões acima serão excessivamente abstratas, o que é
perfeitamente normal. Mas quase todos podem perceber que os
estudos e as discussões meramente intelectuais tendem a se
encerrar em “torres de marfim”, produzindo uma sofisticação
lingüística cada vez mais complexa, nas quais se estabelece
com extraordinária facilidade uma desproporcional ou
excessiva importância às atividades e disputas intelectuais,
quase como se fossem um fim em si mesmas.
O resultado disto, ainda que inconsciente, como é tão fácil de constatar
em alguns casos, é um descolamento, uma alienação, um perder
de vista da relação com os problemas mais urgentes e que
mais atormentam o mundo. É bem ilustrativo o fato de que os
homens conseguiram resolver tantos problemas muito
sofisticados, como aqueles das viagens espaciais, da bomba
atômica, do desenvolvimento de velocíssimos computadores
etc., mas não conseguiram sucesso em questões nada
complexas, mas muito mais urgentes, como a simples
alimentação ou a moradia para todos os seres humanos. Se
isto não é uma demonstração do enorme intelectualismo de
nossa época, então o que poderá ser?
Este segundo aspecto da opção por uma relativa simplicidade doutrinária,
portanto, prende-se ao fato de que há graves e urgentes
problemas, dos quais a nossa atenção não pode ser desviada.
Este desvio implica na quase certeza de uma perda do senso
de prioridades, de quais são os problemas que devemos
resolver em primeiro lugar. Há a necessidade de alguma
elaboração intelectual ou doutrinária, é claro. Como há a
necessidade de mapas. Mas são tão graves os problemas que
desafiam a humanidade de nossos dias, tão vastas as suas
conseqüências, que faz-se necessária uma especial ênfase na
solução efetiva de problemas simples porém absolutamente
prioritários. E para facilitar uma ação cultural, política e
social radicalmente diferente, isto é, comprometida com a
solução consistente dos mais urgentes problemas humanos é
que o Humanitarismo optou por uma voluntária simplicidade
doutrinária, que diminua os riscos do intelectualismo – de
se atribuir exagerada importância à sofisticação intelectual
e ao mero acúmulo de conhecimentos.
Uma Rara Oportunidade de Cooperação
Aquelas pessoas que compreenderem a importância dos princípios do
Humanitarismo para o bem-estar de toda a humanidade, e
sobretudo para o bem-estar dos países e das populações mais
pobres deste mundo, não poderão deixar de sentir a seriedade
do apelo aqui feito sobre a importância de darem a sua
cooperação, dentro de suas próprias capacidades, grandes ou
pequenas, ao trabalho da organização ímpar no mundo que é a
Sociedade Humanitarista.
As pessoas que concordarem com
o que aqui foi transmitido, que graças a esta visão passarem
a entender melhor a vida social, política e econômica de
seus países e do planeta e, portanto, passarem a entenderem
melhor a sua própria vida e o seu próprio lugar dentro da
realidade social, não continuarão a apoiar posturas,
discursos e organizações medíocres e geradoras de mais
miséria no mundo. Estas pessoas não poderão deixar passar a
oportunidade raríssima de auxiliar nos momentos iniciais e
mais difíceis da trajetória do Humanitarismo e da Sociedade
Humanitarista. Elas refletirão sobre a pobreza de uma vida
que não encontrou um movimento com o qual cooperar que vá
até as causas, que não fique nas conseqüências, nos efeitos
dos problemas mundiais. E com imensa alegria elas
compreenderão e responderão de forma positiva e prática à
importância desta cooperação.
Desde logo manifestamos o nosso sincero respeito aos que não puderem
concordar com as visões que aqui foram expostas. Também que
solicitamos que, se isto for possível, nos apresentem suas
críticas e sugestões, pelo que ficaríamos muito agradecidos.
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