[Segundo
capítulo do livro:
O Que Há de Errado com a Política?
Arnaldo Sisson Filho. Editado pela SHB, Porto Alegre,
1994. 107 pp.]
A UNIDADE SUBJACENTE À HUMANIDADE
Unidade e Diversidade nas Tradições Religiosas
Uma visão
a respeito da humanidade que contemple simultaneamente uma
unidade fundamental e uma grande diversidade de capacidades
não é absolutamente nova. Ela está presente em praticamente
todas as grandes tradições religiosas da humanidade, embora
mesmo dentro destas tradições ela tenha sido corrompida de
inúmeras maneiras, a exemplo do sistema de castas atrelado
ao Hinduísmo, ou da ordem estratificada do feudalismo
relacionada com o Cristianismo, entre tantos outros
exemplos.
Vejamos,
no entanto, algumas citações extraídas dos textos de várias
tradições religiosas, com o propósito de evidenciarmos, por
meio do método comparativo, a existência milenar deste
conhecimento dos dois aspectos fundamentais acima referidos.
Pois, como está escrito num dos Vedas da tradição hinduísta:
“A verdade é uma só, mas os sábios falam dela sob muitos
nomes”.
Estas
citações são meros exemplos, entre uma quantidade muito
grande de outras passagens que podem ser encontradas nestas
tradições religiosas. Elas foram agrupadas dentro dos
aspectos “Unidade” e “Diversidade” para facilitar a
visualização destes dois aspectos fundamentais. A seqüência
das religiões segue tão somente à ordem alfabética.
Budismo
Unidade:
“Na
Essência (no Absoluto) não há olhos, nem ouvidos, nem nariz,
nem língua, nem audição, nem olfato, nem gustação, nem tato,
nem processo mental, nem objetos desse processo mental, nem
conhecimento, nem ignorância. Não há destruição de objetos
ou cessação de conhecimento, nem cessação de ignorância.
“Na
Essência (no Absoluto) não há as Quatro Nobres Verdades: não
há Dor, nem causa da Dor, nem cessação da Dor, nem Nobre
Caminho que leva à cessação da Dor. Não há decadência ou
morte, nem destruição da noção de decadência e morte. Não há
o conhecimento do Nirvana, não há obtenção do Nirvana, nem
não-obtenção do Nirvana.” (Maha-Prajna-Paramita)
Diversidade:
“Poucos
são os homens que chegam à outra margem do rio; a maioria
deles se contenta em permanecer na mesma margem, subindo-a e
descendo-a.” (Dhammapada, 49a)
“O néscio
pode associar-se a um sábio toda a sua vida, mas percebe tão
pouco da verdade como a colher do gosto da sopa. O homem
inteligente pode associar-se a um sábio por um minuto, e
perceber tanto da verdade quanto o paladar do sabor da
sopa.” (Dhammapada, 64-65)
“Contempla
este mundo, adornado como uma carruagem real! Os néscios
estão encarrapitados nele, mas os sábios não estão presos a
ele.” (Dhammapada, 171)
“Que
grandes, pequenos e médios façam todos o melhor ao seu
alcance.” (Játacas, 121)
Confucionismo
Unidade:
“Deus
produziu o que há de bom em nós.” (Analectos, VII)
Diversidade:
“O homem
superior pensa em seu caráter; o homem inferior pensa em sua
posição. O homem superior busca o que é correto; o inferior,
o que é lucrativo.” (Analectos, IV)
“O bom e o
mau governo dependem dos dirigentes. Os cargos devem ser
confiados, não aos favoritos do príncipe, porém somente aos
homens capazes. As funções devem ser confiadas, não aos
homens viciosos, porém aos homens eminentes por suas
virtudes e por seus talentos.” (Chu-King, VIII, II,
5)
Cristianismo
Unidade:
“Deus é
amor; aquele que permanece no amor permanece em Deus, e nele
permanece Deus.” (João, 4:16)
“Mente quem diz “amo a Deus”, mas odeia seu irmão.
Quem ama a Deus ama também a seu irmão”. (João,
4:20-21)
“De um só sangue Ele fez todas as gerações
humanas.” (Atos, 17:26)
“Em verdade vos digo que o quanto fizestes a um
destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mateus,
25:40)
Diversidade:
“Porque
assim é (o Reino dos Céus) como um homem que, ao ausentar-se
para longe, chamou seus servos e lhes entregou os seus bens.
E deu a um cinco talentos, e a outro dois, e a outro deu um,
a cada um segundo a sua capacidade, e partiu logo.”
(Parábola dos Talentos, Mateus, 25:14-15)
“Eis que o
semeador saiu a semear. Quando semeava, uma parte das
sementes caiu à beirada do caminho, e vieram as aves e a
comeram. Outra parte caiu nos lugares pedregosos, onde não
havia muita terra; logo nasceu, porque a terra não era
profunda, e tendo saído o sol, queimou-se; e porque não
tinha raízes, secou-se. Outra caiu entre os espinhos, e os
espinhos cresceram e a sufocaram. Outra caiu na terra boa e
deu frutos, havendo grãos que rendiam cem por um, outros
sessenta, outros trinta por um. O que tem ouvidos para
ouvir, ouça.” (Parábola do Semeador, Mateus, 13:3-8)
Hinduísmo
Unidade:
“O
verdadeiro conhecimento é ver uma vida imutável em todos os
seres, e ver nos seres separados o Uno Inseparável.”
(Bhagavad-Gita, XVIII)
“Amar
todas as coisas, grandes ou pequenas, tal como Deus as ama,
eis a verdadeira religião.” (Hitopadexa Upanishade)
Diversidade:
“O mundo
dos homens, achando-se sob o domínio da ilusão dessas três
qualidades da natureza (“gunas”), não compreende que Eu sou
superior a elas, e conservo-Me intacto e imutável no meio
dos inúmeros acontecimentos e mudanças.
“Esta
ilusão é muito forte, e tão denso é o seu véu que é difícil
aos olhos humanos penetrá-lo. Somente aqueles que a Mim se
dirigem e se deixam iluminar pela chama que está detrás da
fumaça, vencem a ilusão e chegam até Mim”.
“Malfeitores e tolos não me procuram, nem aqueles que nutrem
pensamentos baixos, nem aqueles que vêem, no vasto
espetáculo da natureza, somente o jogo das forças, sem
diretor; nem aqueles que extinguiram em si a centelha da
vida espiritual e se tornaram plenamente materialistas”.
“Há quatro
classes de gente que a Mim se dirigem: – os infelizes, os
que investigam a verdade, os bondosos e os sábios.”
(Bhagavad-Gita, VII)
Islamismo
Unidade:
“Ó Povo!
Servi Alá, que vos criou, a vós e aos que vos precederam.
Ele fez a terra para vosso assento e o céu para vosso
dossel. E ele faz cair chuva do céu para produzir os frutos
com que vos sustentais.” (Corão, 2:20)
Diversidade:
“Fala aos
homens segundo suas capacidades mentais; se lhes falares de
coisas que não podem compreender, poderão incidir em erro.”
(Hadith ou Máximas de Maomé, 143)
Judaísmo
Unidade:
“Não temos
todos nós um mesmo Pai? Não nos criou um mesmo Deus?” (Malaquias,
2:10)
“Toda
sabedoria vem de Deus, e com Ele está e esteve sempre, antes
de todos os séculos.” (Eclesiástico, 1:1)
Diversidade:
“Quando os
justos governam, o povo se regozija; mas quando no poder
estão os perversos, o povo geme.” (Provérbios, 29:2)
“Entre os
homens se distinguem quatro tipos de caráter. O neutro, que
é daquele que diz: – ‘o que é meu é meu, e o que é teu é
teu’. O rústico, que é daquele que diz: – ‘o que é meu é
teu, e o que é teu é meu’. O santo, que é daquele que diz: –
‘o que é meu é teu, e o que é teu é teu’. E o perverso, que
é daquele que diz: – ‘o que é meu é meu, e o que é teu é
meu’.” (Máximas dos Pais, 5:13)
Taoísmo
Unidade:
“Há uma
coisa que existia antes do começo da terra e do céu, e o seu
nome é o Tao [o grande princípio de ordem universal,
sintetizador e harmonizador do “Yin” e do “Yang”]. O homem
adapta-se à terra; a terra adapta-se ao firmamento; o
firmamento adapta-se ao Tao; o Tao adapta-se à sua própria
natureza.” (Tao-Te-King, 25)
“O Tao é
inominável e oculto, e contudo todas as coisas se realizam
nele.” (idem, 41)
Diversidade:
“É fácil
seguir o grande Tao, mas o povo vagueia pelas veredas.” (Tao-Te-King,
53)
Xintoísmo
Unidade:
“Todos os
homens são irmãos; todos recebem as bênçãos do mesmo céu.”
(Provérbio do Kurozomi Kyo)
Diversidade:
“Para
todas as coisas, grandes ou pequenas, cumpre descobrir o
homem certo, e elas serão bem administradas.” (Nihongi
ou Crônicas do Japão, cap. 22)
Como
vemos, podemos encontrar nas várias tradições religiosas
ensinamentos que corroboram a perspectiva contida nos
princípios do Humanitarismo a respeito da existência de uma
unidade essencial e de uma grande diversidade de capacidades
manifestadas.
A seguir
examinaremos estas duas características básicas da
humanidade à luz de informações oriundas das ciências
contemporâneas. No restante deste capítulo reuniremos alguns
conhecimentos científicos que esclarecem e corroboram o
aspecto da “unidade”. No seguinte capítulo faremos o mesmo
em relação ao aspecto da “diversidade”.
A Unidade nas Ciências Contemporâneas
Fritjof
Capra, físico de renome internacional e autor do best-seller
O Tao da Física, situa muito bem nesta sua obra a
questão da unidade sob o ponto de vista da física
contemporânea, inclusive em comparação à visão religiosa ou
mística. No capítulo “A Unidade de Todas as Coisas” ele
examina como a teoria quântica, e recentes experimentos no
campo da física das partículas subatômicas tendem a
corroborar e se aproximam muito da visão de mundo dos
místicos. Não é necessário repetirmos aqui tais
desenvolvimentos científicos, os quais já são bem conhecidos
pelas pessoas desta área e podem ser complicados para os
leigos no assunto. Citaremos apenas um parágrafo em que
Fritjof Capra resume sua posição a respeito deste assunto:
“A física
moderna, é claro, trabalha numa perspectiva muito diferente
e não pode ir tão longe (quanto a visão do místico) na
experiência da unidade de todas as coisas. Mas na teoria
atômica ela deu um grande passo na direção da visão de mundo
dos místicos. A teoria quântica aboliu a noção de objetos
fundamentalmente separados, introduziu o conceito do
participante para substituir aquele do observador, e pode
até mesmo achar necessário incluir a consciência humana em
sua descrição do mundo. Ela passou a ver o universo como uma
rede interconectada de relações físicas e mentais, cujas
partes são definidas somente através de suas conexões com o
todo.” (The Tao of Physics, p. 129)
Esta
básica e estreita interconexão de todas as coisas na
natureza parece ser o limite a que podemos chegar com o
auxílio da ciência, no que diz respeito ao reconhecimento de
uma unidade subjacente à humanidade. Como podemos ler na
obra de Capra, ela se deriva muito naturalmente da teoria
quântica. Contudo, esta estreita interconexão pode ser
observada sob uma perspectiva científica em muitas outras
áreas. Um outro exemplo muito iluminador está no campo da
astrofísica, ao observarmos a nossa completa dependência do
Sol na manutenção de toda a vida que hoje conhecemos, e de
onde também podemos depreender muito da unidade subjacente a
toda a natureza. Vejamos, a este respeito, uma passagem do
Dr. I. K. Taimni, PhD. em Química, pela Universidade de
Londres, retirada de sua obra Gayatri, na qual lemos:
“O Sol é o centro do sistema solar, em torno do qual todos
os planetas estão girando. A ciência demonstrou que o Sol é
a fonte de todos os tipos de energia que são necessários
para a vida no sistema solar. Mas a ciência considera o Sol
apenas como uma enorme bola de fogo cuja energia está sendo
mantida pela conversão de Hidrogênio em Hélio, a reação
termonuclear subjacente à produção da bomba de Hidrogênio.
Este potente centro de energia física está continuamente
liberando todos os tipos de energia e vibrações no sistema
solar, como o calor, a luz e os outros tipos de energia que
são utilizados na manutenção da vida em nosso planeta, em
todas as suas formas. A forma maravilhosa como estão bem
ajustadas e reguladas estas várias forças operando no
sistema solar pode ser percebida pelo fato de que se a
temperatura do Sol se elevasse apenas um por cento, todos
nós seríamos reduzidos a cinzas instantaneamente, e se ela
caísse um por cento, seríamos congelados na mesma hora.” (p.
80)
Ao menos
no que diz respeito ao sistema solar, a citação acima nos
mostra claramente como, mesmo no plano material que
conhecemos cientificamente, todas as formas de vida possuem
um centro único do qual elas dependem completamente,
fazendo-nos lembrar da famosa afirmação da tradição de
Hermes Trimegistro de que: – “Assim como o grande é o
pequeno, tal como o que está no alto é o que está embaixo, e
tal como o que está dentro é o que está fora”. Esta citação
do Dr. Taimni também evidencia a estreita interdependência
existente na natureza, bem como sugere belamente que toda a
corrente da vida possui uma única fonte.
Os
conhecimentos oriundos de outras áreas da ciência também
corroboram esta estreita interdependência das formas de vida
no nosso planeta. A Biologia, e dentro dela especialmente a
Ecologia, conhece cada vez mais precisamente que a poluição
e a destruição do ambiente natural de uma parte do planeta
pode ocasionar desequilíbrios catastróficos não apenas
naquele lugar, mas também em outras áreas muito distantes.
É quase
desnecessário mencionar exemplos a este respeito, uma vez
que alguns deles são conhecidos por quase todas as pessoas
medianamente informadas em nossos dias, tais como os
desequilíbrios climáticos provocados pela destruição das
florestas, a extensão transcontinental dos efeitos de
desastres atômicos como o de Chernobyl, as chuvas ácidas
provocadas pela poluição industrial, o efeito estufa que
produz um aumento da temperatura do planeta – com resultados
potencialmente catastróficos – e que é devido à poluição
oriunda, sobretudo, das várias formas de combustão, ou ainda
do buraco na camada de ozônio da atmosfera terrestre, ao que
tudo indica em franco crescimento, e também de gravíssimas
conseqüências, entre outras tantas formas de poluição e
devastação do ambiente natural.
Mesmo no
campo das ciências sociais, políticas e econômicas esta
interdependência torna-se cada vez mais aparente. Apenas
para darmos um exemplo, os efeitos da desorganização
político-econômica que resultam na miséria de muitos, dentro
ou fora de um mesmo país, não se restringem somente àqueles
que são diretamente afetados pela miséria, mas repercutem
inexoravelmente sobre a qualidade de vida mesmo dos mais
abastados, sob a forma de aumentos assustadores na
criminalidade: nos roubos, assaltos, seqüestros,
latrocínios, terrorismo, na proliferação das drogas e de
outras tantas formas de violência social. Tudo isto
significando uma enorme perda na qualidade de vida mesmo
daquelas pessoas aparentemente não atingidas pela miséria,
ou mesmo das mais ricas. Este simples exemplo da
interconexão na área social já é suficiente para mostrar a
total impossibilidade de considerarmos que os destinos de
alguns seres humanos podem estar dissociados dos destinos
dos demais seres humanos.
Como
dissemos, a comprovação da existência desta estreita
interconexão entre todas as coisas na natureza, humanas ou
não humanas, talvez seja o limite até onde a ciência possa
nos auxiliar, no sentido de corroborar o aspecto da
existência de uma unidade subjacente a todos os seres
humanos. Mas o fato é que já se trata de algo muito
significativo. E, sob todos os ângulos que se possa
analisar, os avanços dos conhecimentos científicos somente
têm reforçado e apontado na direção de uma unicidade cada
vez mais aparente entre todas as coisas e fenômenos da
natureza. E a espécie humana, como vimos, certamente não se
constitui em nenhuma exceção a esta regra. O pólo da unidade
subjacente à família humana pode encontrar, portanto, dentro
dos conhecimentos científicos hoje ao nosso dispor, muitos
argumentos e inferências em seu favor.
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